sábado, 18 de março de 2023

Sob Proteção do Lobo capítulo 1

Sob Proteção do Lobo 

Capítulo 1

3 anos depois

Lobo

Havia uma sensação dolorosa e prazerosa na solidão. Uma
que eu apreciava mais do que qualquer coisa. Era esse pensamento
que invadia minha mente enquanto eu rodava entre os dedos o
número de telefone que a garçonete deixou na minha mesa, junto
com o uísque que virei de uma vez só.
Passei os olhos pela pequena multidão que abarrotava um
dos pubs mais caros no centro de Chicago. Vários jovens se
divertiam sob as luzes incandescentes e ofuscantes que piscavam
em meio à fumaça artificial do lugar.
Fiquei encarando a névoa acinzentada e trinquei o maxilar
quando, mais uma vez, o motivo pelo qual eu me permiti ir até
aquele lugar sondou minha mente.
Raramente costumava sair e quando o fazia, nunca escolhia
um lugar em Chicago, a cidade onde morava e trabalhava. Sempre
optava por cidades distantes que me permitissem ficar à vontade,
bem longe de qualquer possibilidade de encontrar algum conhecido,
mas ter que enfrentar meu pai no dia seguinte era um dos motivos
que me levou até ali. Se não distraísse minha cabeça de algum jeito,
acabaria enlouquecendo.
Bem sabia que não deveria ter agredido o convidado do meu
VIP na minha última missão, mas eu detestava pessoas arrogantes
e odiava ainda mais os covardes que se escondiam atrás de
fortunas e de poder.
— Que se foda! — Bufei sozinho.
Meu pai teria que entender a situação. Ele nem era meu
cliente. A regra principal era manter o VIP intacto, ninguém falou
nada sobre os amigos insuportáveis dele.

Balancei meu copo vazio em direção à garçonete que me 
atendeu minutos antes, dando uma boa olhada na mulher de lábios 
volumosos e cabelos encaracolados que caíam ao redor do rosto 
com cachos perfeitos. Ela se aproximou com um sorriso contido e 
depositou o copo pela metade em minha mesa. 
— Se precisar de algo, qualquer coisa... pode me chamar — 
ela disse baixo. — Ou pode me ligar. — Lançou-me uma piscadela e 
mordiscou os lábios tingidos de vermelho, ciente de que eu ainda 
segurava seu número de telefone entre os dedos. 
Ela era atraente e eu poderia garantir que ambos queríamos 
a mesma coisa, uma madrugada de sexo, mas a minha realidade 
naquela noite era diferente das outras que passei na companhia de 
alguma desconhecida. Hoje eu não conseguiria nada além de 
pensar em uma forma de escapar inteiro do meu pai amanhã. 
— Que merda! — praguejei baixo, apoiando os cotovelos na 
mesa. 
Não consegui me controlar durante o trabalho e agora ia ouvir 
por isso. 
Levantei-me, disposto a colocar um fim naquela noite. Desviei 
de algumas pessoas que estavam energizadas pela bebida e 
dançavam conforme a música, até chegar próximo ao bar e notar 
que repentinamente, naquele canto escondido, as pessoas que 
antes pulavam sem parar, agora estavam paradas como estátuas, 
encarando alguma coisa em meio à fumaça cinza que reluzia a luz 
vermelha do bar. 
Busquei com os olhos o que estava chamando a atenção de 
todas aquelas pessoas a ponto de pararem o que estavam fazendo 
e foi então que eu a vi. O motivo pelo qual aquelas pessoas se 
sentiram incapazes de desviar o olhar e, assim como eles, me vi 
preso àquela visão. 
Uma mulher estava dançando sobre uma das mesas do bar. 
Sua blusa preta e luminosa tinha um decote profundo que mexeu 
com minha imaginação, assim como a calça jeans desfiada e muito 
apertada que desenhava suas curvas. Os seios empinados e 
marcados pelo tecido brilhante se moviam conforme ela girava no 
salto fino, os cabelos loiros e muito compridos se pregaram em suas

costas e rosto, os lábios vermelhos estavam manchados pelo batom 
e ela sorria de uma forma tão... livre, que por um ínfimo momento 
tudo que consegui fazer foi admirá-la. Os braços se moviam com 
precisão ao redor do seu corpo. Ela girou sobre um dos pés, 
equilibrando-se no salto com uma perfeição que causou murmúrios 
de admiração às minhas costas. 
A dançarina mantinha os olhos fechados, enquanto deslizava 
as mãos pelo colo do busto, pescoço e cintura. Era uma visão 
excepcionalmente excitante e deliciosa. Como se ela sentisse a 
música em seus ossos. Como se fossem uma só. 
A mulher rodopiou mais uma vez sobre a mesa lustrada e 
desceu logo em seguida, em uma saída perfeita que me levou a 
acreditar que ela era uma dançarina profissional. Pensei ter 
testemunhado a melhor performance que já vi na vida, mas estava 
enganado. 
Ela deu um passo errante quando a música se tornou mais 
lenta e novamente fechou os olhos. Abriu os braços e ficou ali, 
parada por alguns segundos, mais uma vez como se a música a 
penetrasse. E por algum motivo eu não consegui me mover, só 
conseguia observá-la. Os fios soltos presos em sua boca chamaram 
a minha atenção para os lábios semiabertos, e ainda de olhos 
fechados, ela moveu os braços e o que vi depois daquilo foi a mais 
incrível perfeição. A garota girou, saltou e fez movimentos delicados, 
sinuosos e muito sensuais. 
Ela transmitia uma energia tão profunda que me perturbou. 
Entre os giros, a dançarina acabou se aproximando de mim e me vi 
prendendo o ar, observando-a. De perto era ainda mais linda. Como 
um anjo rebelde. Os saltos finos não atrapalhavam em nada, o que 
me impressionou. Não entendia como as mulheres tinham a 
capacidade de andar sobre aquela agulha o dia todo, que dirá 
dançar sobre uma como se estivesse descalça. 
De repente, como que para me contrariar, a garota tropeçou 
em alguma coisa e seu corpo foi arremessado em minha direção. 
Estiquei o braço para ampará-la em um movimento impulsivo e ela 
se agarrou em mim como um bêbado agarraria um poste, metendo 
a mão bem no meio da minha cara.

— Ui, desculpe! — sussurrou, risonha, e outra mulher 
apareceu logo atrás dela. 
— Falei que ia acabar caindo por aí, é melhor a gente ir. — A 
segunda, bem mais baixa que a garota que eu segurava naquele 
momento, aproximou-se com um semblante preocupado. 
— Agora não... — ela respondeu e ergueu o rosto, ainda 
agarrada em meu braço. 
Daquela distância conseguia ver cada detalhe do seu rosto. A 
feição mais fascinante que vi em muitos anos. Os olhos claros 
pareciam duas lanternas acesas, quentes pra caralho. De um verde 
tão profundo quanto uma jade. 
— Você... — ela sussurrou, apontando para meu rosto. A voz 
levemente alterada pelo álcool exalava sensualidade. 
E eu... fiquei paralisado pela beleza selvagem e incrivelmente 
perfeita daquela mulher. Não me movi até que ela parou a um 
centímetro de mim, ergueu a mão e olhou em meus olhos com 
atenção pela primeira vez. Pude ver quando notou a diferença entre 
eles, aquilo que era tão característico em mim que acabou se 
tornando meu codinome. 
É claro que ela notaria. 
Não conheci ninguém que tivesse sequer fingido não 
perceber. Que se foda, eu gostava daquilo. Gostava de ser 
lembrado, gostava de causar impacto. E por algum motivo, a garota 
misteriosa sorriu. 
— Seus olhos... — Ela apontou para eles. — Ou eu bebi 
demais, ou esse daqui é azul... — Tocou minha bochecha com o 
indicador, segurando um sorriso travesso. — E esse daqui é preto. 
— Fez o mesmo do outro lado, e não consegui evitar o pensamento 
de que aquela era a mulher mais adorável que já cruzou meu 
caminho. 
— Quase preto — respondi. 
— Eu quero te beijar — falou do nada e enlaçou meu 
pescoço com os braços. O cheiro de rosas e cerveja logo me 
invadiu. 
— Devia seguir o conselho da sua amiga, moça — disse um 
instante antes do seu olhar encontrar o meu, brilhante, aceso,

enigmático. 
Porra, quem era ela? 
A jovem, que mais parecia uma miragem, sorriu e para minha 
mais profunda surpresa, tascou sem vergonha nenhuma um beijo 
em minha boca. 
— Anastácia! — ouvi a amiga chamar, quando o cheiro doce e 
profundo da tal Anastácia  me tomou. Ela continuou pressionando os 
lábios contra os meus. Sua respiração alterada pela dança tocava 
meu rosto e, porra, aquilo era gostoso demais, mas errado na 
mesma medida. 
— Vai com calma, garota. — Afastei-a e segurei seus pulsos. 
Ela resmungou algo ininteligível e riu em seguida. Estava para lá de 
bêbada. — É melhor levá-la embora — alertei à amiga. 
— Farei isso agora mesmo, sinto muito por esse ataque. — A 
dançarina beijoqueira torceu o nariz e resmungou quando inclinei 
seu corpo, antes tão agitado, para sua companheira. — Anastácia , não 
se deve beijar estranhos, eu já te disse isso. Vem, vamos tomar um 
refrigerante. Vou pedir para meu pai vir nos buscar. — Ela amparou 
a amiga que, por sinal, não parecia satisfeita com o final da noite e 
desapareceu no meio da multidão. 
Saí de lá o mais rápido que consegui. Os pensamentos 
retornando ao beijo mais inesperado que já recebi, e mesmo não 
tendo passado de um selinho seco, o cheiro dela se impregnou em 
minha pele. Doce como um campo florido. 
Paguei a conta na saída e me peguei parado, em frente ao 
elevador que me levaria até o estacionamento, dando uma última 
olhada na multidão aglomerada na boate, secretamente na 
esperança de vê-la mais uma vez. O olhar arredio, sensual e 
instigante não saía da minha cabeça. 
Demorei mais do que gostaria de admitir para conseguir me 
afastar dali, mas eram poucas as coisas que um homem como eu 
devia temer. Olhares como o daquela mulher, sedento, aventureiro, 
delicioso, estavam no topo da lista. 
Entrei no elevador e desci para o estacionamento. Tirei as 
chaves da minha moto do bolso e já estava a centímetros do veículo 
quando ouvi um toc-toc insistente vindo das escadas de incêndio.

Olhei sobre o ombro e como uma visão vinda diretamente do inferno 
para me atentar, lá estava ela. 
A garota dos olhos de jade! 
Estreitei os olhos quando notei seu semblante desesperado 
correndo pelas escadas da saída de incêndio. Ela chegou a olhar 
em minha direção, o rosto delicado ganhando vincos que mais 
pareciam um pedido de ajuda e antes que ela pudesse de fato 
chegar ao estacionamento, um homem saltou sobre ela, segurando 
seus braços. 
— Peguei ela! — gritou e mais um homem apareceu bem 
atrás dele. 
— ME SOLTA! — Ela se debateu contra os braços do sujeito, 
os saltos finos saíram do chão enquanto ela balançava as pernas no 
ar. 
Minhas vistas ficaram vermelhas conforme a raiva subia e 
tomava conta de cada célula do meu corpo. Sabia que não devia me 
meter em problemas dos outros, principalmente pela minha falta de 
autocontrole, mas preferia morrer mil vezes antes de dar às costas a 
uma mulher em perigo. 
Corri até ela e dei um chute em um dos idiotas que a 
seguravam. O homem cambaleou e levou a mão até a cintura no 
mesmo instante, exatamente como o outro sujeito que tentava 
contê-la. 
Então os desgraçados estavam armados? 
Pensei em sacar a minha arma por um breve segundo, mas a 
colocaria em uma linha de um possível tiroteio, então não havia 
escolha. 
Desferi um golpe na mão do homem à minha frente assim 
que ele puxou a arma, tão rápido que ele demorou a assimilar a dor 
que o atingiu. Girei uma cotovelada no segundo desgraçado antes 
que ele conseguisse sacar completamente a arma. O objeto preto 
caiu no chão com o impacto e chutei os dois revólveres para 
debaixo de um dos carros parados no estacionamento. 
A garota escapou e se escondeu atrás de mim. As mãos 
agarravam minha jaqueta com força.

Trinquei o maxilar ao imaginar o que eles pretendiam fazer 
com ela e todos os pensamentos que me atingiram foram 
horripilantes, o que só fez aumentar a fúria que sentia no peito. 
Eles não faziam ideia de com quem estavam lidando. 
Agora que eu era o único armado seria mais fácil rendê-los ali 
mesmo. Levei a mão até a cintura, mas parei antes de sacar minha 
arma. Havia momentos em que a única coisa que continha minha 
fúria era poder distribuir alguns socos. A noite para aqueles filhos da 
puta tinha acabado, eu garantiria aquilo. E antes de chamar a 
polícia, ensinaria a eles que não se devia tocar em uma mulher que 
não queria ser tocada. 
Um deles, o maior de todos, tanto em altura quanto em 
largura, veio que nem um touro para cima de nós dois. Afastei-a 
com um braço para evitar que se machucasse de alguma forma, 
enquanto esperava o desgraçado se aproximar. 
Aquilo ia ser bom... 
Deixei que ele usasse todo seu impulso para me alcançar, 
desviei das suas mãos, rodei no mesmo momento que ele e acertei 
uma cotovelada no queixo do homem, que bambeou. O segundo 
sujeito lançou um soco no ar que raspou meu queixo. Chutei sua 
perna e dei três socos seguidos. Um no estômago, o segundo, um 
pouco acima no plexo e o terceiro no rosto, o que levou o homem ao 
chão em dois segundos. 
O grandalhão não estava disposto a ceder e retornou com 
toda a sua força. Trocamos socos e por fim, dei nele uma rasteira e 
o joguei no chão ouvindo o som do seu corpo se chocar contra o 
piso grosso, com um baque. Ergui o punho disposto a amassar a 
cara daquele desgraçado no soco quando um terceiro homem 
desceu pelas escadas correndo. 
Saltei e fiquei de pé em um segundo, saquei a arma e mirei 
na cabeça dele que ergueu os braços no mesmo instante. 
— MISERICÓRDIA! Vamos ter calma... — ele gritou e 
encarou os comparsas caídos no chão. — Mas o que foi que 
aconteceu aqui? — Aquele último era o menor dos três. Alto e muito 
magro, também parecia ser o mais jovem. Só então percebi que

eles vestiam uma roupa muito parecida. Um terno escuro e pontos 
de comunicação na orelha. 
— E você, filho da puta, vai ficar parado aí? — gritei para ele, 
começando a me questionar sobre a profissão daqueles homens. 
— Ah! — Ele olhou para os dois companheiros caídos no 
chão mais uma vez. Um deles parecia ter desmaiado, e o maior de 
todos gemia de dor enquanto me xingava. — Creio que estou 
tranquilo parado aqui! — Deu de ombros, mantendo as mãos 
erguidas, rendido. 
Continuei mirando na sua cabeça. 
— Quem são vocês? Para quem trabalham? É melhor falar 
agora ou pode dar adeus aos seus joelhos! — Mirei. 
— Eu amo os meus joelhos, por favor, não atire neles! — ele 
respondeu aflito, a voz estridente quase me fez rir. 
— A pergunta não é quem somos, seu maluco — o grandão 
respondeu, se colocando de pé. — Quem é você, e o que estava 
fazendo com a senhorita Stelle? — Stelle ... o sobrenome não me 
era estranho. — Não somos o inimigo aqui, dá para abaixar essa 
merda? — ele pediu, mas obviamente não obedeci. 
— Nós trabalhamos para o pai dela, idiota! — O homem que 
antes estava apagado, recuperou os sentidos e se sentou, no 
mesmo instante em que o som de um motor que eu conhecia muito 
bem ecoou pelo lugar. Gelei por um instante. — E merda... ela agora 
está roubando uma moto e a culpa é toda sua. 
— Porra! 
Virei-me a tempo de ver minha Spirit GP Sport, uma edição 
rara e cara pra caralho, passar pela saída do estacionamento como 
um raio, deixando para trás apenas os cabelos loiros daquela ladra 
safada e uma onda de fúria sem tamanho. 
Enfiei as mãos nos bolsos, lembrando de ter tirado a chave 
em algum momento, mas... onde ela foi parar? Olhei para a vaga 
onde a moto estava parada. O par de saltos altos estavam jogados 
bem ali, abaixo do número 14, na vaga de estacionamento. Deve ter 
sido assim que a filha da puta conseguiu encontrar minha moto, 
deixei o bilhete do estacionamento preso ao chaveiro com o número 
da vaga.

Idiota! Idiota! Idiota! 
— Caralho! — A safada me enganou direitinho. 
— Ela roubou sua moto, né? — O mais jovem e o único que 
não apanhou naquela noite, se aproximou de mim e parou ao meu 
lado. Estava tão furioso que nem sequer respondi. 
Lembrei-me das mãos daquela mulher me segurando como 
se eu fosse seu protetor. Cheguei a pensar que quando terminasse 
com aqueles caras ela estaria bem atrás de mim, assustada, 
temerosa, mas estava enganado. 
Muito, muito enganado... constatei. A sensação de levar um 
soco na boca do estômago me atingiu. 
— Perdemos o Cristal. — Ouvi o grandalhão dizer às minhas 
costas e imediatamente identifiquei-os como seguranças 
particulares. Só um guarda-costas falava assim do seu VIP. Pelo 
visto, ela estava mesmo fugindo de alguém. Das babás pagas pelo 
pai. — Graças a um idiota ela conseguiu acesso a uma moto. Não 
fazemos ideia de para onde foi, cerquem a região e... 
— O idiota aqui sabe bem onde ela está — respondi e bufei 
indignado. 
Era um homem cético por natureza, raramente confiava em 
alguém e quando o fazia, não dava brechas para nenhum tipo de 
traição. Já lidei com homens perigosos de todo tipo e nunca um 
deles conseguiu me passar para trás, como foi que acabei sendo 
roubado por aquela mulher? 
— O que disse? — um deles, o segundo que me enfrentou, 
perguntou enquanto segurava o estômago com força. 
Talvez me arrependesse de não ter perguntado primeiro 
antes de partir para briga com desconhecidos, mas aquela era a 
única forma que eu conhecia de resolver problemas. 
Desde que nasci, a única linguagem que aprendi foi a da 
porrada. Era o único jeito pelo qual sabia me expressar. Um 
caminho triste, mas que me fortaleceu e me transformou no homem 
que era. Mas, ainda que tentasse lutar contra aquele impulso, eu 
tinha um ponto fraco que destruía qualquer tipo de racionalidade... 
mulheres em perigo. Aquilo me tirava do sério, me deixava cego e

sempre me trazia problemas de todo o tipo, como o da noite anterior 
que eu teria que arcar diante do meu pai. 
— Sabe onde ela está? — ele perguntou mais uma vez 
quando viu que me mantive em silêncio. 
— Tem um rastreador na minha moto, mas vou precisar de 
carona — disse entredentes. 
— Ora, seu abusado! Depois de quase ter nos matado ainda 
tem a ousadia de pedir uma carona? 
— Ele vai conosco. — O mais jovem interrompeu o 
grandalhão. — Precisamos dele, o Cristal é prioridade acima de 
tudo. 
— Está falando isso porque não foi você quem tomou uma 
surra dele — o segundo falou. 
Abri o celular enquanto eles discutiam, a fim de localizar a 
moto usando meu GPS. 
— Se vocês ao menos parassem para raciocinar antes de 
saírem se atracando em estacionamentos, saberiam quem ele é. — 
Ergui os olhos diante do comentário do rapaz. 
— E você sabe quem eu sou? 
— É claro que sei. Por que acha que fiquei quieto ali atrás? 
Você é um ídolo para todos que querem fazer parte da Grey  
Security — citou o nome da empresa para qual trabalhava desde 
que me entendia por gente. 
— Ele trabalha lá? — O grandão limpou o nariz, visivelmente 
interessado. 
— Ele é o Lobo, seu idiota. Um dos filhos do dono da Grey 
Security. O mais requisitado em missões especiais. Não tem um 
guarda-costas que tenha entrado depois dele que não queira seguir 
seus passos. — Ele respirou fundo e se virou para mim. Os olhos 
pequenos se alargando à medida que sorria. — É um prazer 
conhecê-lo, senhor. 
— Se querem manter o pescoço daquela garota intacto, é 
melhor irmos logo. Se ela cair com minha moto... 
— Nem brinca! O patrão vai nos matar se ela sofrer um 
arranhão sequer.

— Se a minha moto sofrer um arranhão, eu mesmo vou 
matá-la — rosnei. — Vamos logo. 
Tantos anos no ramo e ninguém, absolutamente ninguém foi 
capaz de me enganar. Até aquela víbora de olhos claros cruzar meu 
caminho. Ah, mas por mil infernos, eu iria ensinar a ela que não se 
devia brincar com lobos.

Continua...

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