sábado, 18 de março de 2023

O CHEFE CAPÍTULO 1


Capítulo 1

Anastácia Stelle 

Ainda
sem acreditar que um ônibus é capaz de comportar tantas pessoas em
plena seis horas da manhã, usando todo estoque da minha fé, que descobri ter
há pouco tempo, esperando que um espacinho surja entre os passageiros, faço
o pagamento da tarifa absurda, dada a má qualidade do veículo e só após três
quarteirões consigo passar pelo torniquete.
Dando um jeitinho do lado direito, me espremendo a esquerda, dou
alguns passos sentindo a minha saia lápis girando no meu corpo e o receio de
ficar exposta toma conta de mim, que Deus me guarde.
Mesmo assim, prossigo me equilibrando como eu posso, até alcançar um
lugar para me segurar.
— Quer deixar a sua bolsa comigo, moça? – Uma jovem senhora, de
aparentemente quarenta e oito anos, me oferece cordialmente a ajuda.
“Boa sorte amanhã na entrevista, cuidado com seus pertences no ônibus
cheio, você corre o risco de sair de bolsa vazia, Ana. Não confie em pessoas
aparentemente do bem, em um transporte público a gente nunca sabe o que
pode acontecer. A realidade aqui é diferente demais de onde você veio...”
Lembro-me do conselho da minha nova amiga e vizinha Carolina, que

tem sido uma verdadeira professora da vida real para mim e temo. O fato é que
eu realmente não tenho como saber se quem me oferece ajuda, agirá de boa fé
e o que levo na bolsa, dentre alguns pertences, está o meu iPhone ainda novo
que eu não poderei substituir tão cedo.
— Obrigada de verdade, mas minha bolsa está bem leve. – Ela me passa
um sorriso acolhedor e na mesma hora acabo me punindo por ter duvidado da
boa vontade da senhorinha. Mas o que eu posso fazer? Enquanto divago
tentando tirar minha mente do aperto que estou vivendo, alguns minutos se
vão. — A senhora sabe me dizer qual o ponto da Quinta Avenida? – Chego a
suspirar, pois desta vez não estou indo para a tão conhecida e cheia de classe
rua de Nova Iorque que leva o mesmo nome e eu amava passear.
— Vixi, menina. Já é no próximo ponto. – Ela olha para o fundo do
ônibus onde fica a porta da saída. — Só um milagre para dar tempo de você
conseguir descer do busão. – O pânico toma conta de todas as minhas
terminações nervosas, pois realmente não vejo como conseguirei tal milagre, e
o bus, que deveria ter no máximo cinquenta pessoas, parece que têm pelo
menos o triplo.
— Obrigada. – Desesperadamente, depois de quase pular para alcançar a
cordinha que sinaliza ao motorista que é chegado o meu ponto, peço licença e
prossigo para minha saga.
Em segundos o ônibus estaciona, para meu desespero ser ainda maior
estou consideravelmente longe da porta, incansavelmente peço licença,
aumentando o meu tom de voz de forma que não estou habituada, as pessoas
notam o meu desespero, em uma empatia coletiva, parecem viver o mesmo
pânico que eu e em um ato de amor, que só usuários de transporte público
vivenciam, eu ouço:
— Esperaaaa aí seu motô.
Morro de vergonha por chamar tanta atenção e um outro passageiro
prossegue:
— Segura o busuuuu pra moça...
Dou mais uns passos, sinto até um ventinho na popa do meu bumbum que

Nenhum comentário:

Postar um comentário

bela mentira

Capítulo 6 Cristhian   Se horas atrás a festa estava cheia e as pessoas transavam, bebiam e dançavam, agora que todos estão a ponto de ter u...