quinta-feira, 3 de novembro de 2022

DIRETOR CAPÍTULO 1



Capítulo 1

Há três meses

Anastácia Stelle 

— Vinte rosas vermelhas, dez brancas e quinze amarelinhas. – Confiro
com muito cuidado mais uma vez a quantidade dos belíssimos botões e sigo
para o outro pequeno balcão de flores que está a minha direita. — Trinta
lírios de cor alaranjada, quatro vasinhos de violetas, dois arranjos com lindas
orquídeas e cinco com belíssimas margaridas. – Após a contagem de sempre,
anoto na agenda da floricultura a quantidade de flores e arranjos disponíveis e
entre um bocejo e outro por ainda ser muito cedo, caminho lentamente até a
minha enorme bolsa térmica onde guardo as caixinhas com os kits cheios de
bombons sortidos que trouxe de casa, a venda deles me garante um ganho
extra.
Logo depois as distribuo no pequeno balcão de vidro apropriado para
alimento que a Sra. Camélia cedeu para mim sem me cobrar pelo aluguel do
espaço, provavelmente por saber que minha remuneração não é apropriada
para o trabalho de oito horas por dia, porém, é o que minha querida patroa
consegue me pagar.
As sete horas da manhã, apesar de ser muito cedo as portas da
floricultura estão abertas, a TV ligada onde no momento passa o jornal
compondo o cenário da rotina e eu, atrás do balcão pronta para o início das
atividades.

"...E hoje, no jornal da noite, com a aproximação das festas de final de
ano, vamos começar uma série de reportagens do especial faça você
mesma, com várias dicas para aumentar a sua renda nesta época de crise
que o Brasil enfrenta..."
Só de ouvir as palavras "aumentar a sua renda" meus olhos brilham, até
porque é o que mais preciso, principalmente por estar noiva, tenho que
prestar vestibular para realizar meu sonho profissional e mesmo que passe na
universidade pública, terei outros gastos relacionados ao transporte e
educação.
— Me conte os seus pensamentos, Lindoca. – Sorrio ao ouvir o apelido
carinhoso que ganhei da minha patroa.
Ela, como em todas as manhãs, chega animada no seu estabelecimento
para mais um dia de trabalho, apesar da sua saúde debilitada por causa da
artrose.
— Nada demais, apenas prestando atenção no jornal. – Ela vem para
meu lado e carinhosamente me dá dois tapinhas nas costas.
— Achei que estava pensando em Alberto. – Revira os olhos enquanto
eu viajo em sonhos cheia de esperanças para um lindo futuro.
— Ahhh, nem é uma má ideia direcionar meus pensamentos para ele. –
Dou uma piscadela enquanto percebo na expressão facial da minha chefe que
ela escolhe as palavras para continuar a conversa.
— Minha menina, tem tempo que eu preciso conversar com você, mas
estou me segurando porque não posso ferir o seu lindo coração e nem quero
que você pense que estou agourando a sua vida. – Fico imediatamente
preocupada e Camélia prossegue. — Nunca vi um noivo tão ausente como o
seu. – Ela parece bem pensativa. — Tem quanto tempo que ele não aparece
por aqui na cidade?
— Oito meses. – Ela revira os olhos e eu me apresso em justificar. — As

férias dele estão chegando e ele vem, até porque temos que resolver muitas
coisas. – Respiro fundo por sempre ter que explicar sobre nós dois. — A
senhora sabe, depois do casamento irei morar na cidade e com fé em Deus
vou passar no vestibular. – Minha resposta não a anima nem um pouco.
— Sabe, minha filha, eu já vi tanta coisa nesta longa vida e não me
engano fácil. Na minha época a distância existia também, era pior até sem 
toda tecnologia, mas isso não impedia os corações apaixonados de se
encontrarem. – Aprecio o cuidado da minha patroa, mas ela na verdade é
mais uma que desconfia da fidelidade de Alberto. — Eu estranho esta frieza
toda, até porque quando encontrei o meu amor que estava aqui de passagem
na cidade, ficamos tão juntinhos que quando ele viajou para sua terra, a
saudade doía de tal forma que parecia que estava rasgando a minha alma, eu
queria estar com meu homem como se ele fosse o ar que respirava e ele a
mesma coisa. – Seus olhos ficam marejados e os meus também ao ouvir o seu
relato. — Meu João se foi, mas ele era um homem de palavra, não mediu
esforços para ficarmos juntos e enfim, nós vivemos uma linda história e
formamos uma família.
Meu coração fica apertado, eu sei que toda distância que meu noivo e eu
estamos vivendo na verdade faz parte das escolhas que fizemos para alcançar
os objetivos, mas ao mesmo tempo minha mente me leva a refletir sobre um
passado não tão distante de quando Alberto e eu começamos a namorar, da
necessidade que tínhamos de estar sempre perto um do outro e então acabo
comparando com o hoje e de fato é tudo tão diferente.
Não é fácil um relacionamento a distância, sabíamos que enfrentaríamos
tal situação e mesmo assim uma dúvida ronda meus pensamentos, será que
realmente Alberto não consegue uma folga para me ver? E por que ele não
fica mais tanto tempo disponível no WhatsApp? O que tanto o ocupa?
Não sei por quantos minutos fico olhando para o nada na esperança de
encontrar respostas e então as minhas divagações são interrompidas pelo
toque do telefone e eu logo atendo, pois nenhum cliente gosta de esperar.

— Floricultura Momentos, bom dia. Em que posso ajudar?
— Oi Anastácia, é Andrade que mora aqui na esquina, preciso da sua ajuda. –
Contenho uma risada por saber que pelo menos uma vez no mês este mesmo
cliente necessita de um socorro.
— Um buquê para um pedido de desculpa?
— Sim e dessa vez foi pior, esqueci o aniversário de casamento. – De
imediato vejo uma oportunidade de fazer negócio.
— Então, que tal uma caixinha de bombons para acompanhar as lindas
rosas vermelhas? – O telefone fica mudo por alguns segundos.
— Flores bastam, Anastácia .
— Vai por mim, não é bem assim, pois flores não se comem. – Ele
gargalha.
— Isso é, e minha esposa ama um doce. Qual bombom você tem hoje? –
Só falto dar pulinhos de alegria.
— Tem o kit "Não me deixe na sofrência", e ele é maravilhoso para a
ocasião, contém quatro trufas de chocolate, recheadas com creme de avelã,
uma pitada de ingrediente surpresa afrodisíaco que faz toda diferença,
caixinha em formato de coração e vai com cartão exclusivo da Ana  Doces. O
que acha? – Ansiosa, aguardo a resposta.
— Acho que você vai me levar a falência, mas eu aceito a sugestão,
preciso do perdão da patroa. – Por fora continuo plena enquanto que por
dentro já fiz várias dancinhas, começar o dia vendendo meus bombons é
maravilhoso.
— Na verdade eu estou ajudando você a salvar seu casamento e isso não
tem preço. – Ele se diverte, me informa que em meia hora passa para buscar a
encomenda, então lá vou eu ajeitar tudo direitinho, inclusive o cartão... Neste
ritmo rotineiro, o dia se vai.
Às dezoito horas, faltando apenas trinta minutos para fechar a
floricultura, estando toda trabalhada na esperança, olho o meu celular e mais

uma vez não encontro uma mensagem de Alberto, será que ele está tão
cansado assim que não responde nem um "boa tarde"?
Ainda com os pensamentos na conversa que tive pela manhã com minha
patroa, resolvo abrir o único kit de doces que sobrou, o "Ele não te merece."
onde contém quatro brigadeiros gigantes e assim eu vou comendo um a um,
até que a tela do meu celular se ilumina e eu volto a ficar parcialmente bem.
"Amor, desculpa não entrar em contato contigo hoje, estou com
saudade de ouvir sua voz, mas meu dia foi tão corrido que nem tive tempo
de almoçar. As coisas aqui no trabalho estão a todo vapor e novas
oportunidades estão surgindo.
PS- Estou contando as horas para te ver.
Beijos, te amo, Ana.
Boa noite."
O que leio não é o suficiente para me deixar feliz, então resolvo ligar,
para meu desespero, a ligação vai direto para caixa de mensagens e só sobra a
opção de enviar um outro SMS.
"Entendo que seu dia seja corrido, estamos focados no nosso objetivo
em comum, mas será que você nem tem tempo para uma ligação de boa
noite?
Você não era assim, lembro-me que me ligava até quando estava
almoçando e quase dormindo.
Viver tão longe é complicado e sem esses pequenos gestos ainda fica
pior.
Que venham logo as suas férias, pois estou achando que nossa decisão
de você ir logo para cidade na intenção de lutar pelo nosso futuro, não está
sendo uma boa ideia.

Beijos."
Após fechar as portas e o caixa, caminho até o singelo escritório onde
tem um pequeno cofre onde guardo um pouco mais de duzentos e cinquenta
reais que o dia rendeu e me apronto para sair.
Como sempre, no caminho de casa, passo no mercadinho onde compro
mais materiais para doces, o pão e algum mantimento que precisa ser reposto.
— Boa noite, Ana . – Sou surpreendida por uma antiga amiga da época
da escola e nos abraçamos. — Tenho que te contar a novidade, marquei meu
casamento para daqui a seis meses e eu estou tão feliz que já estou ansiosa
para encomendar as flores contigo. – Meu coração se enche de alegria, bem
me lembro que Dani sonhava desde nova com este momento.
— Parabéns, Dani. Que vocês sejam muito felizes. E sobre as flores,
passa sim lá na floricultura, com certeza vamos fazer um orçamento bem
camarada. – Ela se aproxima como se estivesse prestes a me contar um
segredo.
— E o seu casamento vai sair quando? – Ai Deus! Essa é a pergunta que
mais ouço desde que uso uma aliança de compromisso.
— Ainda não marcamos, em breve saberemos a data. – Vejo Dani
praticamente em uma luta interna e eu tenho vontade de fugir do
interrogatório que obviamente está chegando.
— Ah, que bom saber disso, confesso que estava preocupada, fiquei
sabendo que seu noivo não aparece aqui na cidade há meses. – Uau! Todos
realmente por aqui estão a par dos acontecimentos.
— Dani, eu preciso pagar essas compras e ir para casa, estou muito
cansada. – Em resposta a minha direta educada, recebo um abraço com um
tom de consolo e enfim nos despedimos.

No percurso para casa, praticamente vou correndo pelas ruas de
paralelepípedo para evitar mais interrogatório e após duas esquinas, avisto o
meu lar doce lar.
Como todas as noites, minha mãe e seu esposo que carinhosamente
chamo de pai, acompanham a novela romanticamente abraçados como se
estivessem ainda namorando.
— Boa noite família. – Como se não quisessem perder as cenas, me
cumprimentam sem ao menos me olhar. — Onde está Bruno? – Pergunto por
meu irmão e com gestos eles apontam para o corredor, imagino que esteja no
seu quarto.
Após deixar as compras na mesa da cozinha, decido tomar uma ducha,
ao passar pela porta do quarto do meu irmão, ouço algo que me deixa
completamente alerta e no impulso abro a porta.
— Ai meu Deus! – Encontro meu menininho de dezessete anos
praticamente tirando a blusa da namorada que eu nem sabia que ele tinha.
— Fala baixo, Anastácia . – Ele me repreende, a menina que eu bem
reconheço se ajeita enquanto convive com sua vergonha. — Nossos pais não
sabem que Rute está aqui.
— E não iam demorar a saber pelo barulho. – Apesar de morrer de
vergonha, sinto que preciso fazer meu papel de irmã mais velha. — Gente,
vocês podem namorar sem tirar a roupa e sem ser no quarto, sabiam? Eu não
quero ser tia, ainda. – A menina faz sinal da cruz, enquanto Bruno me olha
como se quisesse me matar. Nossa! Eu realmente irritei meu irmão.
— Não é só porque você consegue namorar a distância que eu consigo,
nós somos normais e temos desejos. – Ai merda, essa doeu.
— D-desculpa. – Viro-me para sair do ambiente, mas logo ele corre ao
meu encontro, então sou abraçada e jogada na cama.
— Foi mal, maninha. – O abraço do meu irmão, apesar do rápido
desentendimento, cai como um balsamo e eu me permito chorar. — O que

foi, Anastácia ? – Sem me importar com a presença de Rute, desabafo sobre o que
estou vivendo nos últimos meses onde me sinto em um reality show da nossa
pequena cidade e ele me abraça ainda mais forte.
— Alberto gosta de você, isso ficou bem nítido durante todo namoro, e
também quando ele a pediu em casamento antes de viajar a trabalho e sobre a
distância, nossos pais namoraram mais de um ano, lembra? – Rute se
aproxima.
— Pois é, não liga para nada disso, as pessoas aqui são meio que
vidradas nas vidas alheias mesmo. – E eu nem acredito que no auge dos meus
vinte anos, um casal de menores de idade, me consolam.
— Obrigada de verdade, vocês salvaram a minha noite. – Conversamos
mais um pouco, depois decido dar um pouco mais de liberdade aos dois,
levanto-me para sair do quarto e despeço-me de ambos com um abraço. — Se
comportem e caso não consigam, se protejam.
— Pode deixar, Anastácia . Sempre nos protegemos. – Rute confessa
cobrindo o rosto me fazendo até rir e quando estou saindo, ela me faz um
convite sobre um show beneficente da igreja que vai ter na praça.
— Nos vemos amanhã então. – Amo a ideia pois eu realmente preciso de
um passeio.
Como todas as noites, após um jantar digno de me deixar parecendo uma
grávida, a Anastácia  que ama cozinhar e sonha em um dia ser chefe de um
enorme restaurante entra em ação.
Primeiramente vou no armário onde guardo os ingredientes e ao abrir a
porta, fico olhando um a um.
Entre barras de chocolate ao leite e cacau cem por cento, penso no
incentivo do dia para criar um novo doce e por incrível que pareça, é a
saudade que sinto de Alberto que vai reger os meus dons culinários.
— E lá vou eu criar a "cura da saudade." – Mesmo com os olhos
marejados causados pelas circunstâncias, seleciono de início uma caixinha de

creme de leite, leite condensado, manteiga da melhor qualidade e duas barras
de chocolate, uma ao leite e outra amargo. E na minha cabeça eu já sei como
será o bombom e sendo assim, começo a raspar separadamente cada pedaço.
Com o chocolate amargo, faço uma calda bem densa, de forma alguma
pode ficar no ponto de soltar do fundo da panela.
Com a barra de chocolate ao leite, produzo um típico brigadeiro gourmet
e olhando para as duas porções já imagino a explosão de sabores que terei ao
me deliciar com cada pedacinho.
Começo a produção. Primeiramente modelo o brigadeiro gourmet de
forma tradicional e com a receita, eu consigo trinta unidades.
Logo depois, aqueço novamente a calda e vou mergulhando um a um e
para completar polvilho cacau em pó misturado a raspas de chocolate
amargo.
— Isso parece bom, hein? – Meu irmão Bruno invade a cozinha
acompanhado de Rute e eu os sirvo com duas unidades para cada.
— Chegaram na hora certa, vocês vão provar "a cura da saudade." – Eles
se divertem, deixam os bombons esfriarem um pouco e enquanto jogamos
conversa fora eles finalmente provam. Eu amo ver os olhinhos da Rute
praticamente revirando e meu irmão como sempre muito artístico quase
dançando.
— UAU! – Rute pega o próximo e dessa vez come bem devagarinho. —
É-é maravilhoso, esse doce tem sabor de encontro, Ana. – Ahhh, eu amo o
que ouço.
— Isso, encontro é a palavra. – Meu irmão morde mais um pedaço. —
Primeiro ele começa amargo como a saudade e depois vem o doce do
encontro. – E então eu como a minha pequena porção, deixando uma lágrima
de emoção fluir. Para mim a comida é uma arte e conseguir deixar o seu
sabor descrever tal sentimento é maravilhoso. — Quero mais, mana.
— Não. – Nós três gargalhamos com minha entonação ao responder

negativamente e eu como mais um pedacinho do meu bombom. — Esses eu
vou vender, vou fazer cinco kits com cinco bombons em cada caixinha em
formato de coração partido com a etiqueta colando as partes. – Explico e
graças a Deus os dois entendem.
— Sabe, eu tenho seu irmão comigo e ele é meu amor. – Apesar de eles
serem novinhos, eu acho tão fofo os olhares e o que ouço. — Não tenho mais
meu pai e esse doce me fez pensar que apesar de todo amargo da vida, a parte
gostosa sempre vem. Enfim, cunha eu quero uma caixinha. – Rute me
emociona com suas palavras e meu irmão sendo bastante cavalheiro compra
para namorada o mimo.
Eu acabo vendendo pelo preço de custo apesar dos protestos dos dois.
Meu maninho sabe que junto dinheiro, que os doces são pelo menos
cinquenta por cento da minha renda, já que na floricultura ganho meio salário
mínimo e ainda assim agradecendo a dona Camélia. Em uma cidade do
interior não é fácil conseguir serviço e ele conseguiu o de menor aprendiz na
agência bancária.
Quando eles saem de mãos dadas demonstrando o quanto estão
apaixonados, termino de embalar os doces, coloco as caixinhas no local
refrigerado apropriado e vou para o quarto escrever o cartão personalizado
que acompanha o mimo.
"Com estes bombons, quero te lembrar que apesar do amargo, o doce
da vida sempre volta...
Com carinho,
______________"
Obrigado por escolher, os doces da Anastácia."
Imprimo quatro unidades e pensando positivamente sobre o futuro vou
dormir.

Acordo com meu celular tocando, estico-me para atender e quando vejo
quem é, meu coração até aquece um pouquinho, mais não o suficiente para
sarar a dor que a distância traz.
— Te acordei, amor? – Ahh Deus, será que estou sonhando?
— Sim, mas não tem problema. Já têm dois dias que a gente não
conversa e só mensagens não é tão bacana. – Alberto passa os próximos
minutos me pedindo perdão, explicando sua rotina pesada nos plantões da
fábrica e dos turnos trocados.
— E eu sei que nada disso justifica, minha linda. E por isso tenho uma
notícia para você. – Um suspiro de esperança me acomete e eu aguardo na
linha após respirar fundo. — Hoje, no início da noite, estarei aí matando a
saudade de você e eu ficarei todo final de semana ao seu lado.
— Jura? – Meus olhos se abrem de vez. — Não brinca com algo tão
sério, pois você sabe que cheguei no limite da saudade. – Ouço sua risada que
tanto gosto e sentia falta.
— Sim, já estou na rodoviária pronto para encarar as próximas quase que
intermináveis horas de viagem. – No momento que ouço a sua promessa,
sinto um misto de emoções. Sei que estou feliz, porém eu achava que ficaria
mais ao ouvir tal notícia. O que está acontecendo comigo? Será que a
distância me esfriou? — Agora tenho que desligar, na estrada a ligação vai
cair, beijos. Te amo.
— Beijos, e-eu também. – Encerro a ligação, pronta para encarar um
novo dia.
Mesmo com o coração apertado sem saber bem o motivo que mexe com
minhas emoções, no final da tarde antes de fechar a floricultura, a cada
minuto, quase que involuntariamente fixo meu olhar na direção da entrada do
estabelecimento, pois estou ansiosa para ver Alberto chegando e como se o

destino quisesse me testar, passam trinta minutos desde o horário previsto
enviado por ele através do SMS na sua última parada.
— Ai meu Deus, cadê o Alberto? – Fecho os olhos no momento que
busco respostas divinas.
— Olha eu aqui para responder a sua prece. – Meu coração volta a
acelerar, abro os olhos e então eu o vejo largando a mochila no chão e vindo
em minha direção todo lindo com sua altura e corpo másculo que sempre me
hipnotiza. — O pneu do ônibus furou e atrasou um pouco, também passei em
casa rápido e estou aqui para ficar contigo a noite toda. – Seus olhos
castanhos brilham ao me olhar e eu não consigo dizer sequer uma palavra
enquanto ele me abraça, apenas correspondo o gesto e ao contrário do meu
bombom "a cura da saudade" não sinto o sabor adocicado cobrindo o amargo
que a falta dele causou durante tanto tempo, nem quando seus lábios tocam
os meus.
— Ainda bem que chegou, passei o dia ansiosa e com o coração
apertado. – Nossos olhares ficam presos um no outro e ele acaricia meu rosto.
— Temos tanto para conversar, o que está acontecendo conosco? – Ele toca
carinhosamente meus lábios.
— Você está linda, na verdade ainda mais e sobre nós, sei que temos que
conversar, estou ciente que a distância não está ajudando, mas eu tenho um
plano. – Ele respira fundo parecendo cansado. — Podemos conversar após o
evento na praça? Encontrei seu irmão e ele também me chamou, na verdade
me obrigou ao dizer que você também vai.
— Por mim tudo bem, prometi a Rute que iria e também será bom pois
todos nossos amigos estarão por lá, você vai poder matar a saudade deles.
Após uma conversa rápida e alguns beijos, encerro as atividades da
floricultura e de mãos dadas com meu noivo, que finalmente
 apareceu,
caminhamos até minha casa, tenho certeza que hoje os boatos serão

amenizados.
Como meus pais estão presentes e também meu irmão ciumento, me
arrumo em meu quarto sem a presença de Alberto enquanto ele usa as
dependências de Bruno e no meado da noite, lá vamos nós para festa,
acertados que na volta precisamos conversar e faremos isso provavelmente
durante a madrugada.
Em cidade pequena, tudo vira manchete e como chegamos cedo demais
na praça, todos os presentes nos enxergam, pois o evento ainda não começou.
Entre barracas de doces, salgados, bebidas variadas e embalados ao som
instrumental da música religiosa, nossos amigos em comum vêm nos abraçar
e todos querem saber o motivo da demora de Alberto aparecer.
— Ahhh, você veio, cunha. – Rute me surpreende com sua empolgação e
em seguida cumprimenta Alberto com um aperto de mão. — Olha aí você
provando a parte doce do seu bombom. – Ah Deus! Ela é tão romântica e
para não ser um balde de água fria, apenas respondo com um sorriso.
A verdade é que pensei que estaria mais feliz neste momento, mas
acredito que meu desânimo pode se dar ao fato de ainda não termos tido
tempo para ficarmos a sós em um momento mais íntimo.
— Ana, quer cachorro quente? – Alberto me pergunta e meus olhos logo
brilham, as vezes meu desânimo seja apenas fome.
— Por favor e eu quero dois. – Ele me diz que comprará também para
Rute e meu irmão e logo se afasta enquanto fico observando o pequeno palco
onde uma televisão enorme de cinquenta polegadas está ligada no momento
que passa o telejornal do estado.
Entre uma conversa e outra, o responsável do som pluga a TV no alto-
falante e para minha surpresa, começa uma reportagem que eu reconheço de
imediato, o trabalho de Alberto.
"Estamos aqui na indústria GeraEletro para mostrar a importância do

estudo e do preparo do jovem para o futuro. Hoje, cinco jovens técnicos em
engenharia elétrica foram selecionados para estudarem no exterior, esta é
uma empresa que investe nos seus funcionários que sabem o que querem
da vida e tem um futuro promissor. Dentre eles está o Técnico Alberto
Lima que ano que vem dará um enorme passo, mudando completamente o
seu destino.
— Como você se sente sendo um dos selecionados?
— Com certeza eu vou realizar o meu grande sonho."
Enquanto ouço a resposta de Alberto se repetindo em minha cabeça, a
cidade parece ficar em silêncio, no mesmo momento sinto minha mão sendo
apertada por Rute que fica com os olhos marejados, começo a ouvir
cochichos de todos os lados, viro-me em direção ao meu noivo que paralisado
me olha segurando uma cesta de lanches e sendo parabenizado por alguns
amigos.
— Ana . – Meu irmão toca em meu braço, mesmo sem sentir muito meus
pés, eles se movem e eu vou abstraindo tudo ao redor, pois não tenho como
disfarçar que assim como toda minha cidade, acabo de saber a novidade, a
diferença é que eu uso uma aliança que no momento pesa em minha mão
como se fosse chumbo.
— Quando você ia me contar? – Passo por Alberto segurando qualquer
emoção extravagante e só penso em vencer todo obstáculo que a praça se
transformou, mais alguns quarteirões e chegar em casa, porém ele me segue.
— Hoje. – Vejo quando ele entrega a cesta ao amigo e vem ao meu lado.
— Anastácia , para por favor, temos que conversar, não era assim que você ia
descobrir tudo, eu não sabia que a entrevista ia ao ar hoje. – Continuo
caminhando sem respondê-lo por não querer ficar ainda mais em evidência
perante a vizinhança até chegar na varanda da minha casa, sendo seguida por
um Alberto que nunca vi na vida, completamente desesperado.

— Agora você pode falar.
— Podemos conversar no seu quarto? – Respondo que prefiro um
ambiente neutro, longe de qualquer tentação e ele senta ao meu lado. — Eu
preciso te explicar tanta coisa, Ana. – Ele toca em minha mão que fica presa
a dele de forma automática.
— Comece, por favor.
— Quando consegui o emprego e ficamos noivos, eu tinha acabado de
fazer vinte e um anos e eu pensava como a maioria dos jovens daqui. – Não
gosto muito do que ouço e passo um olhar de desaprovação que ele entende.
— Não leve para o lado pessoal meu amor, eu aprecio todos os nossos planos
e sonhos, mas fui pego por outra realidade. Assim que cheguei na cidade
grande, percebi que o valor que eu ganhava trabalhando na padaria aqui, não
pagaria nem o nosso transporte por lá durante um mês, é tudo tão caro que
você nem imagina. – Ele respira fundo e eu vejo sinceridade em suas
palavras. — Aquele estilo de apartamento que pensamos em financiar lá na
cidade, que no site as fotos eram lindas e com dez mil daríamos entrada no
banco, eles ficam em uma área de risco, para você ter ideia, até na janela do
terceiro andar têm grades e o bairro tem toque de recolher. – Eu o vejo com
os olhos marejados e várias perguntas rondam meus pensamentos.
— Por que você nunca me contou suas aflições e a realidade da cidade?
– Eu já sabia que não seria tão fácil, mas não a tal ponto.
— Ana, a cada vez que falamos, você despejava em mim seus sonhos
que eu quero vê-la realizando, eu prometi que você estudaria e seria a grande
chefe em um famoso restaurante e para isso eu precisava também de dinheiro
e foi então que abriu a seleção na indústria. – Ele olha para baixo e aperta a
minha mão. — Nos últimos quatro meses, quando não estava trabalhando,
estava estudando, principalmente inglês, ou desmaiado de tanto cansaço no
sofá ou cama do alojamento, eu precisava melhorar de vida, por mim, por
nós.
— E foi aí que você começou a sumir, teve dias que você nem me ligou.

– Paro por um momento para organizar as ideias. — Nossa, eu imaginei
tantas coisas, várias pessoas na verdade especularam todas as possibilidades,
até traição. – Ele abaixa a cabeça.
— Traí nossos planos ao não conseguir visualizá-los na mesma ordem de
antes, fui imaturo por te esconder tudo e a verdade é que eu mudei. Enquanto
aqui as pessoas se casam cedo demais, no mundo afora, na nossa idade os
jovens viajam, estudam e esse mundo me encantou. – Ele volta a me olhar. —
Nunca tive outra mulher, posso ter me transformado em um cara ambicioso,
que não soube se comunicar, mas em todas minhas ambições você está
inclusa.
— Você me deixou iludida enquanto a sua vida andou, isso não se faz,
Alberto. – Tiro a minha mão da dele e lembrando de todos os bombons que
fiz durante as noites para vender no outro dia, fico arrasada, pois a verdade é
que mesmo amando cozinhar, tendo o apoio da minha família que apesar de
ser simples não me deixa faltar nada, eu também poderia estar estudando ao
invés de me esforçando tanto para ir para cidade.
— Me perdoa, por favor. – Ele me abraça. — E se nós vencemos oito
meses, podemos vencer esse tempo longe um do outro, eu te amo. – Sinto
carinho, desejo, bem, na verdade fico até feliz de vê-lo realizando seus
sonhos, só que não consigo mais dizer as três palavras.
— E-eu pensei que estava vivendo o amor que tudo suporta, você é meu
primeiro namorado, meu primeiro homem, com você descobri todos os
prazeres, isso tem um significado enorme e eu te esperei, mas sua ausência
comprovou aquela historinha que ouvimos desde crianças, a da plantinha que
não recebe cuidado e fica murcha. – Ele volta a entrelaçar as mãos com as
minhas.
— E-eu tenho amor o suficiente para te reconquistar, Anastácia ... – Nós nos
olhamos por alguns segundos e eu sei que preciso tomar uma decisão.

Continua...

Um comentário:

  1. fala serio ana manda ele a merda e mais vai atras dos seus sonhos porque ele ta seguindo a vidadele

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