Capítulo 2
Três meses depois
– Dias atuais
Hoje faz exatamente quatorze dias que me despedi do meu amigo
Alberto com um abraço, antes da sua partida para o exterior. Logo ele que há
um pouco mais de três meses, antes do vexame na praça, eu ainda achava que
seria meu marido e isso me arranca até um sorriso bobo acompanhado por um
longo suspiro.
Pois percebo que estou vivendo um estado dúbio.
Hora estou bem, em outros momentos sinto falta daquela sensação de
parcialmente pertencer a alguém, mesmo sabendo que não existia mais
futuro.
Fazer o que se o amor ou a paixão é um vício tão forte quanto a
dependência de comer doce? Costumes interrompidos machucam e isso eu já
sei de cor. Sem falar que ainda existe uma possibilidade que só enxerguei
após conversar com minha tia solteirona que tentou se apaixonar diversas
vezes, nem todo mundo nasceu para ser feliz no amor.
— Pensando na vida, filha? – Meu pai me chama atenção enquanto
observo as paisagens que o caminho para cidade me mostra.
— Um pouco, porque a vida é engraçada. – Ele estreita seus lindos olhos
verdes como os meus e pelo que conheço dele, preciso contar mais um pouco
dos meus pensamentos. — Ora, pai. Se algum vidente ou cigana me
encontrasse na rua e me contasse que minha vida ia mudar de tal forma, eu
não acreditaria. – Ele balança a cabeça concordando. – Hoje Alberto está no
Canadá e eu aqui, quase chegando na cidade para morar contigo. – Ele dá
risada.
— É minha filha, a vida é justamente assim, por isso temos que
supervalorizar os bons momentos, porque mesmo que nossos planos não
deem certo, nós deixamos flores no caminho. – Ele pausa um pouco e inclina
o assento do ônibus. — Você é um exemplo, sua mãe e eu não demos certo,
mas você existe e é uma bênção. Assim como seu irmão. – Concordo com
gestos. — Alberto e você também não, mas tenho certeza que enquanto durou
vocês foram bem felizes. – O observo, do jeito que ele franze a testa, dá para
ver que meu coroa ainda tem coisas para dizer.
— Desembucha, pai. – Ele gargalha.
— Anastácia, eu sempre respeitei as suas escolhas. Mas estava apreensivo
com seu provável casamento, não por desconfiar da índole de um menino que
conheço desde criança, mas por querer o melhor para você que ainda nem fez
vinte e um anos, pelo amor de Deus filha. Você viveu o que? Você precisa
estudar e vencer na vida, assim como Alberto está fazendo. – Concordo e
olhando para o hoje e a bolsa que consegui para estudar no melhor cursinho
da cidade, percebo que realmente é necessário ter realizações pessoais.
— O Sr. Eduardo sempre tem razão. – Brinco e ele apenas confirma com
gestos e eu me lembro de matar alguma curiosidade. — Me diz, as pessoas do
cursinho são legais? – Ele volta a franzir a testa.
— Sou apenas o jardineiro paisagista, filha. Meu trabalho é deixar a área
externa linda. – Meu pai gesticula para o nada como se estivesse ganhando
tempo. — Tirando o diretor Cristhian e alguns professores, pouquíssimos
alunos, falam comigo.
— Nossa, que horror. – Ele dá risada ao ouvir meu protesto.
— O cursinho é enorme, fica anexo a melhor faculdade particular do
estado e só tem gente rica, é meio que normal não ser visto. – Não curto
muito o que ouço e até me preocupo, será que também serei uma invisível no
meio de tanta gente granfina? Sem falar que eu preciso de uma nova
clientela, pois todo dinheiro que juntei no interior, gastei com a mobília para
meu quarto novo, Deus me ajude.
— Será que os alunos vão gostar dos meus doces? – Agora que não mais
trabalho, meus bombons serão minha única fonte de renda e eu não quero
depender apenas do meu pai.
— Só se eles forem loucos, seus doces são maravilhosos, Ana.
— Assim eu espero, pai. – Volto a olhar as paisagens e sinto um toque
no meu braço.
— Vai ter uma festa amanhã de boas-vindas aos alunos do semestre, na
verdade é da faculdade, você deveria ir, já vai conhecendo a turma, o que
acha? – Balanço a cabeça em negativa ao mesmo tempo que recebo uma
olhada que exala a frase "Você vai, só perguntei por educação."
— Tudo bem, pai. Já vi que não tenho escapatória. – Ele apenas gargalha
e acaricia meu rosto.
— Sua escapatória é viver. Todas as fases de acordo com sua idade e isso
é uma ordem.
♥
Depois de me instalar no pequeno quarto do apartamento anexo do
cursinho e faculdade que antigamente era destinado a uma equipe de
funcionários, meu pai me convida para conhecer as dependências da
instituição, alegando que não terá muito tempo nos próximos dias e eu aceito
para o satisfazer.
Fico boquiaberta a cada passo que dou, para meu desespero, o ambiente
é tão chique que mais parece que estou em um shopping, exagero a parte, dá
para ver que o local não é frequentado pela baixa renda e isso me deixa um
pouco mais preocupada. Será que meu grau de ensino será o suficiente para
acompanhar este cursinho.
— Boa tarde, Elaine. Cristhian está? – Meu pai pergunta para uma senhora,
ela nega e informa que o diretor só esteve no curso pela manhã. — Queria
apresentar esta nova aluna para ele.
— É sua filha? – Ela aponta para mim, caminha em minha direção e
segura meu rosto com as duas mãos.
— Seus olhos são uma armadilha, assim como os do seu pai. – Ela brinca
com ele e dá para ver que são bem amigos. — E você também é linda, garota.
– Até sinto vergonha com o excesso de elogio.
— Obrigada. – Elaine me pergunta se aparecerei na festa, respondo e ela
que sim, me faz prometer que me divertirei e segue o seu caminho.
— Sabe filha, tem um lugar que você vai amar conhecer, mas será um
segredo nosso. – Ele me dá a mão. — Fica no espaço da faculdade e por
incrível que pareça, bem próximo de onde moramos. – Caminhamos
rapidamente, ele fica sempre atento olhando para os lados, então abre uma
porta e o que vejo, faz meu queixo cair.
— Uau, pai!
— Essa é a cozinha do curso de gastronomia, Ana. Um dia você vai
estudar em uma dessa. – Me apaixono imediatamente pelo espaço, as
bancadas gigantes, os fogões, utensílios que nunca vi e todo tipo de peças de
modelagem.
— Será que me deixariam usar? – Meu pai dá risada.
— Não, de forma alguma, minha menina. Agora vamos que logo alguém
pode passar por aqui. – Saio praticamente sendo arrastada, imaginando o que
uma cozinha gigante como a que acabo de ver poderia me proporcionar.
♥
Após um longo dia, finalmente chega o momento de ir para festa e para
ocasião, decido ir de vestido preto, saltos altos e cabelos soltos, combinação
que eu acredito que será sucesso, afinal de contas, dizem que o pretinho
nunca erra.
— Pai, tem certeza que não vai comigo? – Ele nega com gestos.
— Sua segunda mãe vai chegar em alguns minutos, ficarei para fazer
companhia. – Gosto de ter uma mãe na cidade, Ester desde que chegou na
vida do meu pai, sempre demonstrou bastante receptividade comigo, até me
arrependo de não me mudar para morar com eles logo que conclui o segundo
grau.
— Tudo bem, não devo demorar. – Ele vem em minha direção, me dá
um beijo no rosto e parecendo ter medo que eu desista de sair, logo abre a
porta.
— Moramos praticamente dentro da festa, fique o tempo que for
necessário. – Desço cuidadosamente as escadas, no caminho passo pela porta
da belíssima cozinha me mantando de vontade de entrar só para ficar
admirando todo ambiente e sigo para festa caminhando por longos corredores
vazios, e assim que chego no local bastante agitado me sinto em uma revista
de moda super atualizada.
Jesus! Já quero voltar para casa, pois a impressão que eu tenho é que sou
observada com desdém.
— Boa noite, posso me sentar aqui? – Tento ter alguma comunicação
com uma garota morena que continua olhando para seu celular de última
geração.
— Não, meu namorado já está chegando. – Reviro os olhos, continuo
passeando o olhar pelo ambiente até que vejo uma garota linda, muito bem
vestida, mas aparentemente tímida e então me aproximo.
— Você parece ser bem granfina só que está deslocada, como eu. Posso
me sentar aqui com você? – Ela sorri e coloca os cabelos para os lados.
— Só pareço, mas não sou nem um pouco e pode me fazer companhia,
por favor. – Levanto as mãos para cima como se estivesse agradecendo aos
céus e me acomodo.
— Meu nome é Anastácia, sou bolsista no pré-vestibular pela tarde, sou filha
do jardineiro e agora a noite fui forçada a aparecer nesta festa, meu pai acha
que ficarei mais animada. – Despejo logo minha realidade para ver sua
reação.
— Meu nome é Carla, sou estudante de assistência social. – A garota
começa a falar da sua rotina de trabalho, até do seu namorado que pelo o que
entendo, deve ser bem-sucedido. O engraçado é que vejo seus olhos
brilhando, Carla só falta flutuar de tão apaixonada que está. Será que já fiquei
assim? — E você? Tem namorado? – Tento disfarçar, sorrio meio sem jeito e
a verdade é que não me sinto à vontade para contar todos os detalhes dos
últimos meses.
— Há um pouco mais de quinze dias eu tinha, vivia uma ilusão, mas algo
aconteceu e agora eu tenho certeza que amor é luxo. – Conto o que me vem
na cabeça para logo mudar de assunto, em hipótese alguma quero voltar há
três meses e contar o momento que Alberto saiu da minha vida. Foi muito
triste e eu não almejo contagiar a menina apaixonada. Logo depois nos
servimos de alguns salgados que eu acredito que sei fazer melhor, tomamos
algumas batidas de frutas, Carla continua tentando me empolgar, mas ainda
me sinto como uma invasora deste mundo. Até que um garçom a entrega um
bilhete que ela lê com um sorriso nos lábios. — Algum admirador secreto? –
Fico super curiosa.
— Serve namorado secreto? – A sua pergunta detém toda minha atenção.
— Ele está aqui, chegamos juntos, mas não podemos ser vistos ainda um na
companhia do outro. – Um amor proibido, isso deve ser tão quente, até eu
queria viver algo do tipo. — Vamos dançar, Anastácia? – Ela me tira das minhas
divagações pecaminosas.
— Vamos sim, dançar sempre me deixa animada. – E isso me lembra
muito as festas na praça da cidade... Merda, me lembrei da praça.
Abstraio das lembranças, como fazia no interior com minhas amigas,
estendo a mão para Carla e a guio para pista de dança, porém ficamos um
pouco atrás pois não somos altas o suficiente para brigar pelas primeiras
posições em frente ao palco.
Para minha sorte, as músicas no estilo sertanejo universitário embalam a
noite e eu sei vários passinhos.
— Não faço ideia de como se dança, Anastácia. – Eu me acabo de rir.
— Me imita, Carla. – Ela aceita a sugestão, aos poucos aprende e nos
divertimos muito dançando várias músicas.
— Anastácia, não posso mais demorar, marquei para me encontrar com meu
lindo em poucos minutos.
— Só mais uma música, Carla. Por favor. – Peço de forma sincera, pois
sei que ficarei sozinha quando ela se for.
— Tudo bem, só mais uma música. – Me animo, por causa do passinho,
fico um pouco de costas para Carla e quando volto a olhá-la, um homem
muito gato para ao lado dela e eu vejo que é o tal namorado. Meu Deus!
Impossível não o notar, mesmo com muito respeito.
— Anastácia, este é meu... – A frase de Carla é interrompida por gritos, uma
multidão começa a correr, minha nova amiga me puxa, tento acompanhar
seus passos, mas uma garota super alta me empurra. — Anastáciaaa. – Carla fica
desesperada, caio ajoelhada, tento levantar mas não consigo pois sempre
alguém se bate em mim, morro de medo de ser pisoteada, o pânico me dá
falta de ar e quando tudo vai ficando escuro, sinto meu corp
o sendo
carregado como se eu fosse uma pena e um perfume másculo maravilhoso
invade as minhas narinas.
Cristhian Grey
Como diretor de um conceituado cursinho anexo da Faculdade Social de
Humanas que faz parte da rede de ensino da minha família há décadas, antes
de todo evento que une as instituições, preciso me certificar de que tudo está
nos conformes para a segurança de todos os alunos.
Primeiramente verifico se as equipes médicas compostas por médicos e
enfermeiros estão a postos, se as quatro ambulâncias já estão estacionadas
devidamente próximas as saídas de emergência.
Logo depois confiro se os seguranças já estão presentes e se o
comprovante de pagamento da taxa ECAD para que a banda e o Dj toquem as
músicas da moda se apresentem sem maiores problemas está acessível caso a
fiscalização apareça.
— Jamile, você já se certificou que o engenheiro assinou a vistoria do
palco?
— Claro, Cristhian. – Ela olha para os lados e comprova que não temos
companhia e sem pudor acaricia meu braço. — E antes que me pergunte, as
entradas com detectores de metais também já foram posicionadas. – Afasto-
me da minha amiga e vice-diretora e sento-me na minha cadeira.
— Ótimo. – Ela senta na minha mesa, um pouco ao meu lado e cruza as
pernas me dando uma visão privilegiada das suas lindas coxas.
— Será que hoje depois da festa você finalmente nos dará uma chance? –
Porra, eu bem sei que preciso de alguma distração, depois de tanto tempo sem
nenhuma foda está difícil suportar, contudo meu compromisso maior é com
Bia.
— Você sabe que não tenho tempo. – Ela lamenta, mas com gestos me
mostra que não desiste do que quer ao deslizar para minha frente na mesa e se
ajeitar com as pernas um pouco afastadas. – Porra!
— Pode ser agora então, ainda temos meia hora para o início da festa. –
Jamile começa a desabotoar sua blusa e eu não tenho mais como resistir, ela é
uma morena linda. Puta merda!
Coloco a mão no meu bolso para buscar a carteira onde devo ter algum
preservativo, todavia não a encontro e eu imagino bem o motivo.
— Jamile. – Com gestos peço para que ela pare e ela fica completamente
envergonhada, provavelmente acha que a estou rejeitando. — Não fica assim,
podemos marcar outro dia, mas acabo de me lembrar que minha carteira
estava na cama, ao lado de Bia enquanto me arrumava e provavelmente
deixei lá, estou sem preservativo. – Mesmo em meio a toda frustração, ela
parece mais consolada, se inclina em minha direção e após um beijo rápido
nos meus lábios, sussurra:
— E minha bolsa está longe, no meu carro. – Acaricia a minha barba por
fazer. — Eu não acredito que Bia mesmo estando longe nos atrapalhou. –
Levanto-me por não gostar do que ouço e para sua sorte, meu celular toca e
como a ligação é de casa, preciso atender.
♥
Já na festa, como em todos os anos, temos um local para professores e
familiares mais privilegiado, cumprimento alguns, aceno para outros, mas
prefiro ficar de olho em toda movimentação, mas ao olhar para esquerda, sou
surpreendido ao ver Adriano, amigo de longa data.
— Não vá me dizer que voltou a estudar? – Faço piada por causa da sua
presença, gargalhamos e apertamos as mãos.
— Na verdade... – Ele para por um momento e observa o ambiente. —
Estou aqui acompanhando minha namorada, ela está estudando em uma das
faculdades da sua família, mas é um caso que ainda estamos mantendo em
segredo. – Fico surpreso ao ouvir a frase que remete a compromisso, conheço
bem o meu amigo.
— E você sabe que pode contar com minha discrição, somos amigos. –
Em seguida ele me conta como conheceu Carla, do quanto ela o conquistou
com seu jeito simples e eu vejo nos seus olhos que realmente a paixão o
pegou, suspeito até que seja amor. — Porra, alguém aqui tinha que ter sorte e
pelo jeito, você é um homem que está apaixonado, sei bem como é isso, cuida
bastante da sua mulher. – Lamento e Adriano parece ficar abalado,
provavelmente lembrou de tudo o que aconteceu comigo.
— A festa está ótima. – Muda de assunto para tentar me deixar mais
animado, disfarço fingindo que deu certo, ele me mostra sua namorada de
longe e ainda fica tranquilo por ela estar enturmada.
Vemos claramente uma jovem sentada ao seu lado, mas do ângulo que
estamos não conseguimos ver seu rosto, porém algumas coisas me chamam
atenção. Seus longos cabelos e seu quadril mais evidente formado uma curva
após a sua cintura fina. Porra, talvez eu realmente precise de alguma
distração, afinal de contas já têm alguns longos meses que não tenho
ninguém.
♥
Entre comes, bebes, conversas jogadas fora, som alto e alunos se
divertindo, vejo do alto quando um rapaz começa a empurrar algumas
pessoas que estão em frente ao palco de forma mais agressiva como se
estivesse querendo chegar em um destino. Logo sinalizo para os seguranças e
tudo acontece muito rápido. Avisto o mesmo rapaz ameaçando uma garota, o
pânico rapidamente se espalha e os alunos começam a correr.
Desço os degraus, corro em direção ao problema para deter o desgraçado
causador de toda confusão, cujos os seguranças não conseguem conter, então
vejo uma mulher ajoelhada, um pouco de lado tentando levantar, correndo o
risco de ser pisoteada.
Esqueço-me de tudo ao redor, rapidamente me aproximo, a carrego e a
levo para o atendimento médico o mais rápido possível.
Ao chegar, deito-a em uma maca, de prontidão um médico vem atendê-la
e eu me afasto. Sem perda de tempo volto para o lugar da festa, pois preciso
ver se já colocaram tudo em ordem.
Anastácia Stelle
Ainda sem saber o motivo de tanta correria, sendo carregada por um
homem extremamente alto e forte, com as mãos entrelaçadas ao seu pescoço,
sentindo sua enorme mão em minha coxa e inebriada com seu perfume que
sinto bem de perto por estar com a face próxima do seu rosto, em instantes
sou deixada em uma maca e ele, que detém toda a minha atenção nos rápidos
segundos que permanece ao meu lado, se vai, deixando-me com as
lembranças do resgate que acabo de sofrer.
— Q-quem é ele? – pergunto baixinho, mas o médico segue com o
protocolo de atendimento rápido por ter outras pessoas na fila sem nem me
responder, afere minha pressão arterial e só volta a falar comigo quando ver
que estou bem.
— Um assistente vai te acompanhar até seu carro. – Deus do céu, ele
acha que tenho carro.
— Não precisa, moro no apartamento que fica aqui atrás, meu pai é o
jardineiro daqui do curso e faculdade. – O médico até tenta disfarçar, mas
nitidamente fica surpreso com meu relato. Será que ser pobre por aqui é tão
estranho? — Boa noite. – Ele se despede. — E não se preocupe, você está
bem. – Agradeço, levanto-me e me retiro do local de pronto atendimento
procurando pelo meu super-herói que salvou a minha vida. Mas entre as
pessoas que vêm e vão, não o vejo.
O fato é que aquele homem é memorável, minha mente guardou cada
traço que os poucos segundos me permitiram notar. Seu rosto másculo, a
barba por fazer, os contornos do corpo que pude sentir e o seu cheiro
amadeirado... Ahhh, que delícia! Ele definitivamente é um pedaço de
perdição, até deveria ser de comer.
"Meu Deus, no que estou pensando? Logo eu que há poucos meses só
pensava em Alberto?"
Divirto-me com minhas divagações quentes que envolvem a mão do
homem misterioso em minha coxa e vou para casa envolta em uma fantasia
platônica, sonhando em revê-lo e quem sabe, provar.
Suspeito que seus lábios devem ser deliciosos e como eu não o tenho...
Decido inventar um novo doce que irei chamar de "Meu crush", espero que
ele vire febre entre as alunas, pois vai ser muito gostoso.
Voltando para realidade, observo o caos que a festa se tornou com seu
encerramento prematuro, caminho entre funcionários, poucos estudantes que
provavelmente devem estar esperando alguma condução e várias cadeiras
viradas que quando passo por elas, até as levanto por serem leves e lindas
demais para estarem jogadas ao chão.
— Filha. – Meu pai me chama com certa aflição e eu ando rapidamente
em sua direção. — Desde que ouvi a gritaria corri até aqui para te procurar e
por não te encontrar, entrei em pânico. – Abraço meu coroa com carinho para
o confortar.
— Foi tudo tão rápido e assustador. – Enquanto caminhamos para casa
de mãos dadas, conto sobre todo o ocorrido.
— E você não estava querendo comparecer e eu insisti, as vezes temos
que ouvir a voz de Deus, graças a Ele houve o livramento, se fosse ao
contrário eu não sei o que faria da vida. – Paro por um momento e realmente
sei que hoje tenho que agradecer aos céus, ser pisoteada por uma multidão
pode até ser fatal.
— Na verdade, se não fosse pelo anjo que me carregou, eu não sei o que
seria de mim. – E eu queria saber tanto quem me salvou que chego a suspirar.
— Não sei quem foi, mas serei eternamente grato.
♥
Olho para o relógio no meu celular e já passam das duas da manhã,
porém o sono nem dá sinal de vida, pois quando fecho os olhos as lembranças
recentes vêm com força e a temperatura do meu corpo começa a subir.
Levanto-me um pouco agoniada, aumento a velocidade do ventilador
para o máximo, sento-me na cama para olhar as notificações no celular e nada
relaxa minha mente o suficiente para que eu apague.
—Ai ai ai, Anastácia. Você prometeu que não ia virar a cabeça na cidade e
que ia correr atrás do seu sonho, deixando qualquer hipótese que possa te
tirar dos trilhos de lado. – Sussurro como se eu pudesse obedecer a bronca
que eu mesma me dou e como eu sei que cabeça vazia não presta, resolvo
produzir algum bombom inspirado na tentação e nesse eu quero uma surpresa
deliciosa, algo que derreta na boca assim como o beijo do meu herói de barba
por fazer deve ser.
Para minha surpresa, pela primeira vez fico indecisa no que escolher,
penso no doce de morango que me faz pensar na sua língua, na compota de
frutas vermelhas levemente apimentada que me lembra da sua enorme mão
em minhas coxas e do bombom recheado com leite condensado que...
— Ai meu Deus! Não acredito que pensei no leite, o-ou melhor, neste
recheio. – Cubro meu rosto com as mãos como se estivesse tentando me
esconder do universo, tento controlar certas pulsações que a carência me
acomete e após beber um enorme copo cheio de água gelada, decido que o kit
"Meu crush", terá os três sabores na caixinha e vou selecionar os
ingredientes.
Eu só não imaginava que o calor do ambiente ia me prejudicar tanto,
muito menos que o ventilador não conseguiria deixar o local mais fresco, em
torno de 25°C para menos, pois é a temperatura necessária para confecção
dos bombons, mas como são poucas unidades, mesmo gastando o dobro do
tempo e brigando com o chocolate que derrete bastante, consigo aprontar a
encomenda, eu só não sei o que será da minha vida se eu precisar fazer ainda
mais bombons.
No interior não tinha ar-condicionado, mas era fresco e ventilado,
diferente daqui que nem refresca com o ventilador.
Continua...
Gente cometam para saber se estão gostando.