sexta-feira, 4 de novembro de 2022

O DIRETOR CAPÍTULO 2

Capítulo 2

Três meses depois 

– Dias atuais
Hoje faz exatamente quatorze dias que me despedi do meu amigo
Alberto com um abraço, antes da sua partida para o exterior. Logo ele que há
um pouco mais de três meses, antes do vexame na praça, eu ainda achava que
seria meu marido e isso me arranca até um sorriso bobo acompanhado por um
longo suspiro.
Pois percebo que estou vivendo um estado dúbio.
Hora estou bem, em outros momentos sinto falta daquela sensação de
parcialmente pertencer a alguém, mesmo sabendo que não existia mais
futuro.
Fazer o que se o amor ou a paixão é um vício tão forte quanto a
dependência de comer doce? Costumes interrompidos machucam e isso eu já
sei de cor. Sem falar que ainda existe uma possibilidade que só enxerguei
após conversar com minha tia solteirona que tentou se apaixonar diversas
vezes, nem todo mundo nasceu para ser feliz no amor.
— Pensando na vida, filha? – Meu pai me chama atenção enquanto
observo as paisagens que o caminho para cidade me mostra.
— Um pouco, porque a vida é engraçada. – Ele estreita seus lindos olhos

verdes como os meus e pelo que conheço dele, preciso contar mais um pouco
dos meus pensamentos. — Ora, pai. Se algum vidente ou cigana me
encontrasse na rua e me contasse que minha vida ia mudar de tal forma, eu
não acreditaria. – Ele balança a cabeça concordando. – Hoje Alberto está no
Canadá e eu aqui, quase chegando na cidade para morar contigo. – Ele dá
risada.
— É minha filha, a vida é justamente assim, por isso temos que
supervalorizar os bons momentos, porque mesmo que nossos planos não
deem certo, nós deixamos flores no caminho. – Ele pausa um pouco e inclina
o assento do ônibus. — Você é um exemplo, sua mãe e eu não demos certo,
mas você existe e é uma bênção. Assim como seu irmão. – Concordo com
gestos. — Alberto e você também não, mas tenho certeza que enquanto durou
vocês foram bem felizes. – O observo, do jeito que ele franze a testa, dá para
ver que meu coroa ainda tem coisas para dizer.
— Desembucha, pai. – Ele gargalha.
— Anastácia, eu sempre respeitei as suas escolhas. Mas estava apreensivo
com seu provável casamento, não por desconfiar da índole de um menino que
conheço desde criança, mas por querer o melhor para você que ainda nem fez
vinte e um anos, pelo amor de Deus filha. Você viveu o que? Você precisa
estudar e vencer na vida, assim como Alberto está fazendo. – Concordo e
olhando para o hoje e a bolsa que consegui para estudar no melhor cursinho
da cidade, percebo que realmente é necessário ter realizações pessoais.
— O Sr. Eduardo sempre tem razão. – Brinco e ele apenas confirma com
gestos e eu me lembro de matar alguma curiosidade. — Me diz, as pessoas do
cursinho são legais? – Ele volta a franzir a testa.
— Sou apenas o jardineiro paisagista, filha. Meu trabalho é deixar a área
externa linda. – Meu pai gesticula para o nada como se estivesse ganhando
tempo. — Tirando o diretor Cristhian e alguns professores, pouquíssimos
alunos, falam comigo.
— Nossa, que horror. – Ele dá risada ao ouvir meu protesto.

— O cursinho é enorme, fica anexo a melhor faculdade particular do
estado e só tem gente rica, é meio que normal não ser visto. – Não curto
muito o que ouço e até me preocupo, será que também serei uma invisível no
meio de tanta gente granfina? Sem falar que eu preciso de uma nova
clientela, pois todo dinheiro que juntei no interior, gastei com a mobília para
meu quarto novo, Deus me ajude.
— Será que os alunos vão gostar dos meus doces? – Agora que não mais
trabalho, meus bombons serão minha única fonte de renda e eu não quero
depender apenas do meu pai.
— Só se eles forem loucos, seus doces são maravilhosos, Ana.
— Assim eu espero, pai. – Volto a olhar as paisagens e sinto um toque
no meu braço.
— Vai ter uma festa amanhã de boas-vindas aos alunos do semestre, na
verdade é da faculdade, você deveria ir, já vai conhecendo a turma, o que
acha? – Balanço a cabeça em negativa ao mesmo tempo que recebo uma
olhada que exala a frase "Você vai, só perguntei por educação."
— Tudo bem, pai. Já vi que não tenho escapatória. – Ele apenas gargalha
e acaricia meu rosto.
— Sua escapatória é viver. Todas as fases de acordo com sua idade e isso
é uma ordem.
Depois de me instalar no pequeno quarto do apartamento anexo do
cursinho e faculdade que antigamente era destinado a uma equipe de
funcionários, meu pai me convida para conhecer as dependências da
instituição, alegando que não terá muito tempo nos próximos dias e eu aceito
para o satisfazer.
Fico boquiaberta a cada passo que dou, para meu desespero, o ambiente
é tão chique que mais parece que estou em um shopping, exagero a parte, dá
para ver que o local não é frequentado pela baixa renda e isso me deixa um

pouco mais preocupada. Será que meu grau de ensino será o suficiente para
acompanhar este cursinho.
— Boa tarde, Elaine. Cristhian está? – Meu pai pergunta para uma senhora,
ela nega e informa que o diretor só esteve no curso pela manhã. — Queria
apresentar esta nova aluna para ele.
— É sua filha? – Ela aponta para mim, caminha em minha direção e
segura meu rosto com as duas mãos.
— Seus olhos são uma armadilha, assim como os do seu pai. – Ela brinca
com ele e dá para ver que são bem amigos. — E você também é linda, garota.
– Até sinto vergonha com o excesso de elogio.
— Obrigada. – Elaine me pergunta se aparecerei na festa, respondo e ela
que sim, me faz prometer que me divertirei e segue o seu caminho.
— Sabe filha, tem um lugar que você vai amar conhecer, mas será um
segredo nosso. – Ele me dá a mão. — Fica no espaço da faculdade e por
incrível que pareça, bem próximo de onde moramos. – Caminhamos
rapidamente, ele fica sempre atento olhando para os lados, então abre uma
porta e o que vejo, faz meu queixo cair.
— Uau, pai!
— Essa é a cozinha do curso de gastronomia, Ana. Um dia você vai
estudar em uma dessa. – Me apaixono imediatamente pelo espaço, as
bancadas gigantes, os fogões, utensílios que nunca vi e todo tipo de peças de
modelagem.
— Será que me deixariam usar? – Meu pai dá risada.
— Não, de forma alguma, minha menina. Agora vamos que logo alguém
pode passar por aqui. – Saio praticamente sendo arrastada, imaginando o que
uma cozinha gigante como a que acabo de ver poderia me proporcionar.
Após um longo dia, finalmente chega o momento de ir para festa e para

ocasião, decido ir de vestido preto, saltos altos e cabelos soltos, combinação
que eu acredito que será sucesso, afinal de contas, dizem que o pretinho
nunca erra.
— Pai, tem certeza que não vai comigo? – Ele nega com gestos.
— Sua segunda mãe vai chegar em alguns minutos, ficarei para fazer
companhia. – Gosto de ter uma mãe na cidade, Ester desde que chegou na
vida do meu pai, sempre demonstrou bastante receptividade comigo, até me
arrependo de não me mudar para morar com eles logo que conclui o segundo
grau.
— Tudo bem, não devo demorar. – Ele vem em minha direção, me dá
um beijo no rosto e parecendo ter medo que eu desista de sair, logo abre a
porta.
— Moramos praticamente dentro da festa, fique o tempo que for
necessário. – Desço cuidadosamente as escadas, no caminho passo pela porta
da belíssima cozinha me mantando de vontade de entrar só para ficar
admirando todo ambiente e sigo para festa caminhando por longos corredores
vazios, e assim que chego no local bastante agitado me sinto em uma revista
de moda super atualizada.
Jesus! Já quero voltar para casa, pois a impressão que eu tenho é que sou
observada com desdém.
— Boa noite, posso me sentar aqui? – Tento ter alguma comunicação
com uma garota morena que continua olhando para seu celular de última
geração.
— Não, meu namorado já está chegando. – Reviro os olhos, continuo
passeando o olhar pelo ambiente até que vejo uma garota linda, muito bem
vestida, mas aparentemente tímida e então me aproximo.
— Você parece ser bem granfina só que está deslocada, como eu. Posso
me sentar aqui com você? – Ela sorri e coloca os cabelos para os lados.
— Só pareço, mas não sou nem um pouco e pode me fazer companhia,

por favor. – Levanto as mãos para cima como se estivesse agradecendo aos
céus e me acomodo.
— Meu nome é Anastácia, sou bolsista no pré-vestibular pela tarde, sou filha
do jardineiro e agora a noite fui forçada a aparecer nesta festa, meu pai acha
que ficarei mais animada. – Despejo logo minha realidade para ver sua
reação.
— Meu nome é Carla, sou estudante de assistência social. – A garota
começa a falar da sua rotina de trabalho, até do seu namorado que pelo o que
entendo, deve ser bem-sucedido. O engraçado é que vejo seus olhos
brilhando, Carla só falta flutuar de tão apaixonada que está. Será que já fiquei
assim? — E você? Tem namorado? – Tento disfarçar, sorrio meio sem jeito e
a verdade é que não me sinto à vontade para contar todos os detalhes dos
últimos meses.
— Há um pouco mais de quinze dias eu tinha, vivia uma ilusão, mas algo
aconteceu e agora eu tenho certeza que amor é luxo. – Conto o que me vem
na cabeça para logo mudar de assunto, em hipótese alguma quero voltar há
três meses e contar o momento que Alberto saiu da minha vida. Foi muito
triste e eu não almejo contagiar a menina apaixonada. Logo depois nos
servimos de alguns salgados que eu acredito que sei fazer melhor, tomamos
algumas batidas de frutas, Carla continua tentando me empolgar, mas ainda
me sinto como uma invasora deste mundo. Até que um garçom a entrega um
bilhete que ela lê com um sorriso nos lábios. — Algum admirador secreto? –
Fico super curiosa.
— Serve namorado secreto? – A sua pergunta detém toda minha atenção.
— Ele está aqui, chegamos juntos, mas não podemos ser vistos ainda um na
companhia do outro. – Um amor proibido, isso deve ser tão quente, até eu
queria viver algo do tipo. — Vamos dançar, Anastácia? – Ela me tira das minhas
divagações pecaminosas.
— Vamos sim, dançar sempre me deixa animada. – E isso me lembra
muito as festas na praça da cidade... Merda, me lembrei da praça.

Abstraio das lembranças, como fazia no interior com minhas amigas,
estendo a mão para Carla e a guio para pista de dança, porém ficamos um
pouco atrás pois não somos altas o suficiente para brigar pelas primeiras
posições em frente ao palco.
Para minha sorte, as músicas no estilo sertanejo universitário embalam a
noite e eu sei vários passinhos.
— Não faço ideia de como se dança, Anastácia. – Eu me acabo de rir.
— Me imita, Carla. – Ela aceita a sugestão, aos poucos aprende e nos
divertimos muito dançando várias músicas.
— Anastácia, não posso mais demorar, marquei para me encontrar com meu
lindo em poucos minutos.
— Só mais uma música, Carla. Por favor. – Peço de forma sincera, pois
sei que ficarei sozinha quando ela se for.
— Tudo bem, só mais uma música. – Me animo, por causa do passinho,
fico um pouco de costas para Carla e quando volto a olhá-la, um homem
muito gato para ao lado dela e eu vejo que é o tal namorado. Meu Deus!
Impossível não o notar, mesmo com muito respeito.
— Anastácia, este é meu... – A frase de Carla é interrompida por gritos, uma
multidão começa a correr, minha nova amiga me puxa, tento acompanhar
seus passos, mas uma garota super alta me empurra. — Anastáciaaa. – Carla fica
desesperada, caio ajoelhada, tento levantar mas não consigo pois sempre
alguém se bate em mim, morro de medo de ser pisoteada, o pânico me dá
falta de ar e quando tudo vai ficando escuro, sinto meu corp
o sendo
carregado como se eu fosse uma pena e um perfume másculo maravilhoso
invade as minhas narinas.

Cristhian Grey 

Como diretor de um conceituado cursinho anexo da Faculdade Social de
Humanas que faz parte da rede de ensino da minha família há décadas, antes
de todo evento que une as instituições, preciso me certificar de que tudo está
nos conformes para a segurança de todos os alunos.
Primeiramente verifico se as equipes médicas compostas por médicos e
enfermeiros estão a postos, se as quatro ambulâncias já estão estacionadas
devidamente próximas as saídas de emergência.
Logo depois confiro se os seguranças já estão presentes e se o
comprovante de pagamento da taxa ECAD para que a banda e o Dj toquem as
músicas da moda se apresentem sem maiores problemas está acessível caso a
fiscalização apareça.
— Jamile, você já se certificou que o engenheiro assinou a vistoria do
palco?
— Claro, Cristhian. – Ela olha para os lados e comprova que não temos
companhia e sem pudor acaricia meu braço. — E antes que me pergunte, as
entradas com detectores de metais também já foram posicionadas. – Afasto-
me da minha amiga e vice-diretora e sento-me na minha cadeira.
— Ótimo. – Ela senta na minha mesa, um pouco ao meu lado e cruza as
pernas me dando uma visão privilegiada das suas lindas coxas.
— Será que hoje depois da festa você finalmente nos dará uma chance? –
Porra, eu bem sei que preciso de alguma distração, depois de tanto tempo sem
nenhuma foda está difícil suportar, contudo meu compromisso maior é com
Bia.
— Você sabe que não tenho tempo. – Ela lamenta, mas com gestos me
mostra que não desiste do que quer ao deslizar para minha frente na mesa e se
ajeitar com as pernas um pouco afastadas. – Porra!
— Pode ser agora então, ainda temos meia hora para o início da festa. –
Jamile começa a desabotoar sua blusa e eu não tenho mais como resistir, ela é

uma morena linda. Puta merda!
Coloco a mão no meu bolso para buscar a carteira onde devo ter algum
preservativo, todavia não a encontro e eu imagino bem o motivo.
— Jamile. – Com gestos peço para que ela pare e ela fica completamente
envergonhada, provavelmente acha que a estou rejeitando. — Não fica assim,
podemos marcar outro dia, mas acabo de me lembrar que minha carteira
estava na cama, ao lado de Bia enquanto me arrumava e provavelmente
deixei lá, estou sem preservativo. – Mesmo em meio a toda frustração, ela
parece mais consolada, se inclina em minha direção e após um beijo rápido
nos meus lábios, sussurra:
— E minha bolsa está longe, no meu carro. – Acaricia a minha barba por
fazer. — Eu não acredito que Bia mesmo estando longe nos atrapalhou. –
Levanto-me por não gostar do que ouço e para sua sorte, meu celular toca e
como a ligação é de casa, preciso atender.
Já na festa, como em todos os anos, temos um local para professores e
familiares mais privilegiado, cumprimento alguns, aceno para outros, mas
prefiro ficar de olho em toda movimentação, mas ao olhar para esquerda, sou
surpreendido ao ver Adriano, amigo de longa data.
— Não vá me dizer que voltou a estudar? – Faço piada por causa da sua
presença, gargalhamos e apertamos as mãos.
— Na verdade... – Ele para por um momento e observa o ambiente. —
Estou aqui acompanhando minha namorada, ela está estudando em uma das
faculdades da sua família, mas é um caso que ainda estamos mantendo em
segredo. – Fico surpreso ao ouvir a frase que remete a compromisso, conheço
bem o meu amigo.
— E você sabe que pode contar com minha discrição, somos amigos. –
Em seguida ele me conta como conheceu Carla, do quanto ela o conquistou
com seu jeito simples e eu vejo nos seus olhos que realmente a paixão o

pegou, suspeito até que seja amor. — Porra, alguém aqui tinha que ter sorte e
pelo jeito, você é um homem que está apaixonado, sei bem como é isso, cuida
bastante da sua mulher. – Lamento e Adriano parece ficar abalado,
provavelmente lembrou de tudo o que aconteceu comigo.
— A festa está ótima. – Muda de assunto para tentar me deixar mais
animado, disfarço fingindo que deu certo, ele me mostra sua namorada de
longe e ainda fica tranquilo por ela estar enturmada.
Vemos claramente uma jovem sentada ao seu lado, mas do ângulo que
estamos não conseguimos ver seu rosto, porém algumas coisas me chamam
atenção. Seus longos cabelos e seu quadril mais evidente formado uma curva
após a sua cintura fina. Porra, talvez eu realmente precise de alguma
distração, afinal de contas já têm alguns longos meses que não tenho
ninguém.
Entre comes, bebes, conversas jogadas fora, som alto e alunos se
divertindo, vejo do alto quando um rapaz começa a empurrar algumas
pessoas que estão em frente ao palco de forma mais agressiva como se
estivesse querendo chegar em um destino. Logo sinalizo para os seguranças e
tudo acontece muito rápido. Avisto o mesmo rapaz ameaçando uma garota, o
pânico rapidamente se espalha e os alunos começam a correr.
Desço os degraus, corro em direção ao problema para deter o desgraçado
causador de toda confusão, cujos os seguranças não conseguem conter, então
vejo uma mulher ajoelhada, um pouco de lado tentando levantar, correndo o
risco de ser pisoteada.
Esqueço-me de tudo ao redor, rapidamente me aproximo, a carrego e a
levo para o atendimento médico o mais rápido possível.
Ao chegar, deito-a em uma maca, de prontidão um médico vem atendê-la
e eu me afasto. Sem perda de tempo volto para o lugar da festa, pois preciso
ver se já colocaram tudo em ordem.

Anastácia Stelle 

Ainda sem saber o motivo de tanta correria, sendo carregada por um
homem extremamente alto e forte, com as mãos entrelaçadas ao seu pescoço,
sentindo sua enorme mão em minha coxa e inebriada com seu perfume que
sinto bem de perto por estar com a face próxima do seu rosto, em instantes
sou deixada em uma maca e ele, que detém toda a minha atenção nos rápidos
segundos que permanece ao meu lado, se vai, deixando-me com as
lembranças do resgate que acabo de sofrer.
— Q-quem é ele? – pergunto baixinho, mas o médico segue com o
protocolo de atendimento rápido por ter outras pessoas na fila sem nem me
responder, afere minha pressão arterial e só volta a falar comigo quando ver
que estou bem.
— Um assistente vai te acompanhar até seu carro. – Deus do céu, ele
acha que tenho carro.
— Não precisa, moro no apartamento que fica aqui atrás, meu pai é o
jardineiro daqui do curso e faculdade. – O médico até tenta disfarçar, mas
nitidamente fica surpreso com meu relato. Será que ser pobre por aqui é tão
estranho? — Boa noite. – Ele se despede. — E não se preocupe, você está
bem. – Agradeço, levanto-me e me retiro do local de pronto atendimento
procurando pelo meu super-herói que salvou a minha vida. Mas entre as
pessoas que vêm e vão, não o vejo.
O fato é que aquele homem é memorável, minha mente guardou cada
traço que os poucos segundos me permitiram notar. Seu rosto másculo, a
barba por fazer, os contornos do corpo que pude sentir e o seu cheiro
amadeirado... Ahhh, que delícia! Ele definitivamente é um pedaço de

perdição, até deveria ser de comer.
"Meu Deus, no que estou pensando? Logo eu que há poucos meses só
pensava em Alberto?"
Divirto-me com minhas divagações quentes que envolvem a mão do
homem misterioso em minha coxa e vou para casa envolta em uma fantasia
platônica, sonhando em revê-lo e quem sabe, provar.
Suspeito que seus lábios devem ser deliciosos e como eu não o tenho...
Decido inventar um novo doce que irei chamar de "Meu crush", espero que
ele vire febre entre as alunas, pois vai ser muito gostoso.
Voltando para realidade, observo o caos que a festa se tornou com seu
encerramento prematuro, caminho entre funcionários, poucos estudantes que
provavelmente devem estar esperando alguma condução e várias cadeiras
viradas que quando passo por elas, até as levanto por serem leves e lindas
demais para estarem jogadas ao chão.
— Filha. – Meu pai me chama com certa aflição e eu ando rapidamente
em sua direção. — Desde que ouvi a gritaria corri até aqui para te procurar e
por não te encontrar, entrei em pânico. – Abraço meu coroa com carinho para
o confortar.
— Foi tudo tão rápido e assustador. – Enquanto caminhamos para casa
de mãos dadas, conto sobre todo o ocorrido.
— E você não estava querendo comparecer e eu insisti, as vezes temos
que ouvir a voz de Deus, graças a Ele houve o livramento, se fosse ao
contrário eu não sei o que faria da vida. – Paro por um momento e realmente
sei que hoje tenho que agradecer aos céus, ser pisoteada por uma multidão
pode até ser fatal.
— Na verdade, se não fosse pelo anjo que me carregou, eu não sei o que
seria de mim. – E eu queria saber tanto quem me salvou que chego a suspirar.
— Não sei quem foi, mas serei eternamente grato.

Olho para o relógio no meu celular e já passam das duas da manhã,
porém o sono nem dá sinal de vida, pois quando fecho os olhos as lembranças
recentes vêm com força e a temperatura do meu corpo começa a subir.
Levanto-me um pouco agoniada, aumento a velocidade do ventilador
para o máximo, sento-me na cama para olhar as notificações no celular e nada
relaxa minha mente o suficiente para que eu apague.
—Ai ai ai, Anastácia. Você prometeu que não ia virar a cabeça na cidade e
que ia correr atrás do seu sonho, deixando qualquer hipótese que possa te
tirar dos trilhos de lado. – Sussurro como se eu pudesse obedecer a bronca
que eu mesma me dou e como eu sei que cabeça vazia não presta, resolvo
produzir algum bombom inspirado na tentação e nesse eu quero uma surpresa
deliciosa, algo que derreta na boca assim como o beijo do meu herói de barba
por fazer deve ser.
Para minha surpresa, pela primeira vez fico indecisa no que escolher,
penso no doce de morango que me faz pensar na sua língua, na compota de
frutas vermelhas levemente apimentada que me lembra da sua enorme mão
em minhas coxas e do bombom recheado com leite condensado que...
— Ai meu Deus! Não acredito que pensei no leite, o-ou melhor, neste
recheio. – Cubro meu rosto com as mãos como se estivesse tentando me
esconder do universo, tento controlar certas pulsações que a carência me
acomete e após beber um enorme copo cheio de água gelada, decido que o kit
"Meu crush", terá os três sabores na caixinha e vou selecionar os
ingredientes.
Eu só não imaginava que o calor do ambiente ia me prejudicar tanto,
muito menos que o ventilador não conseguiria deixar o local mais fresco, em
torno de 25°C para menos, pois é a temperatura necessária para confecção
dos bombons, mas como são poucas unidades, mesmo gastando o dobro do
tempo e brigando com o chocolate que derrete bastante, consigo aprontar a
encomenda, eu só não sei o que será da minha vida se eu precisar fazer ainda
mais bombons.

No interior não tinha ar-condicionado, mas era fresco e ventilado,
diferente daqui que nem refresca com o ventilador.

Continua...

Gente cometam para saber se estão gostando.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

DIRETOR CAPÍTULO 1



Capítulo 1

Há três meses

Anastácia Stelle 

— Vinte rosas vermelhas, dez brancas e quinze amarelinhas. – Confiro
com muito cuidado mais uma vez a quantidade dos belíssimos botões e sigo
para o outro pequeno balcão de flores que está a minha direita. — Trinta
lírios de cor alaranjada, quatro vasinhos de violetas, dois arranjos com lindas
orquídeas e cinco com belíssimas margaridas. – Após a contagem de sempre,
anoto na agenda da floricultura a quantidade de flores e arranjos disponíveis e
entre um bocejo e outro por ainda ser muito cedo, caminho lentamente até a
minha enorme bolsa térmica onde guardo as caixinhas com os kits cheios de
bombons sortidos que trouxe de casa, a venda deles me garante um ganho
extra.
Logo depois as distribuo no pequeno balcão de vidro apropriado para
alimento que a Sra. Camélia cedeu para mim sem me cobrar pelo aluguel do
espaço, provavelmente por saber que minha remuneração não é apropriada
para o trabalho de oito horas por dia, porém, é o que minha querida patroa
consegue me pagar.
As sete horas da manhã, apesar de ser muito cedo as portas da
floricultura estão abertas, a TV ligada onde no momento passa o jornal
compondo o cenário da rotina e eu, atrás do balcão pronta para o início das
atividades.

"...E hoje, no jornal da noite, com a aproximação das festas de final de
ano, vamos começar uma série de reportagens do especial faça você
mesma, com várias dicas para aumentar a sua renda nesta época de crise
que o Brasil enfrenta..."
Só de ouvir as palavras "aumentar a sua renda" meus olhos brilham, até
porque é o que mais preciso, principalmente por estar noiva, tenho que
prestar vestibular para realizar meu sonho profissional e mesmo que passe na
universidade pública, terei outros gastos relacionados ao transporte e
educação.
— Me conte os seus pensamentos, Lindoca. – Sorrio ao ouvir o apelido
carinhoso que ganhei da minha patroa.
Ela, como em todas as manhãs, chega animada no seu estabelecimento
para mais um dia de trabalho, apesar da sua saúde debilitada por causa da
artrose.
— Nada demais, apenas prestando atenção no jornal. – Ela vem para
meu lado e carinhosamente me dá dois tapinhas nas costas.
— Achei que estava pensando em Alberto. – Revira os olhos enquanto
eu viajo em sonhos cheia de esperanças para um lindo futuro.
— Ahhh, nem é uma má ideia direcionar meus pensamentos para ele. –
Dou uma piscadela enquanto percebo na expressão facial da minha chefe que
ela escolhe as palavras para continuar a conversa.
— Minha menina, tem tempo que eu preciso conversar com você, mas
estou me segurando porque não posso ferir o seu lindo coração e nem quero
que você pense que estou agourando a sua vida. – Fico imediatamente
preocupada e Camélia prossegue. — Nunca vi um noivo tão ausente como o
seu. – Ela parece bem pensativa. — Tem quanto tempo que ele não aparece
por aqui na cidade?
— Oito meses. – Ela revira os olhos e eu me apresso em justificar. — As

férias dele estão chegando e ele vem, até porque temos que resolver muitas
coisas. – Respiro fundo por sempre ter que explicar sobre nós dois. — A
senhora sabe, depois do casamento irei morar na cidade e com fé em Deus
vou passar no vestibular. – Minha resposta não a anima nem um pouco.
— Sabe, minha filha, eu já vi tanta coisa nesta longa vida e não me
engano fácil. Na minha época a distância existia também, era pior até sem 
toda tecnologia, mas isso não impedia os corações apaixonados de se
encontrarem. – Aprecio o cuidado da minha patroa, mas ela na verdade é
mais uma que desconfia da fidelidade de Alberto. — Eu estranho esta frieza
toda, até porque quando encontrei o meu amor que estava aqui de passagem
na cidade, ficamos tão juntinhos que quando ele viajou para sua terra, a
saudade doía de tal forma que parecia que estava rasgando a minha alma, eu
queria estar com meu homem como se ele fosse o ar que respirava e ele a
mesma coisa. – Seus olhos ficam marejados e os meus também ao ouvir o seu
relato. — Meu João se foi, mas ele era um homem de palavra, não mediu
esforços para ficarmos juntos e enfim, nós vivemos uma linda história e
formamos uma família.
Meu coração fica apertado, eu sei que toda distância que meu noivo e eu
estamos vivendo na verdade faz parte das escolhas que fizemos para alcançar
os objetivos, mas ao mesmo tempo minha mente me leva a refletir sobre um
passado não tão distante de quando Alberto e eu começamos a namorar, da
necessidade que tínhamos de estar sempre perto um do outro e então acabo
comparando com o hoje e de fato é tudo tão diferente.
Não é fácil um relacionamento a distância, sabíamos que enfrentaríamos
tal situação e mesmo assim uma dúvida ronda meus pensamentos, será que
realmente Alberto não consegue uma folga para me ver? E por que ele não
fica mais tanto tempo disponível no WhatsApp? O que tanto o ocupa?
Não sei por quantos minutos fico olhando para o nada na esperança de
encontrar respostas e então as minhas divagações são interrompidas pelo
toque do telefone e eu logo atendo, pois nenhum cliente gosta de esperar.

— Floricultura Momentos, bom dia. Em que posso ajudar?
— Oi Anastácia, é Andrade que mora aqui na esquina, preciso da sua ajuda. –
Contenho uma risada por saber que pelo menos uma vez no mês este mesmo
cliente necessita de um socorro.
— Um buquê para um pedido de desculpa?
— Sim e dessa vez foi pior, esqueci o aniversário de casamento. – De
imediato vejo uma oportunidade de fazer negócio.
— Então, que tal uma caixinha de bombons para acompanhar as lindas
rosas vermelhas? – O telefone fica mudo por alguns segundos.
— Flores bastam, Anastácia .
— Vai por mim, não é bem assim, pois flores não se comem. – Ele
gargalha.
— Isso é, e minha esposa ama um doce. Qual bombom você tem hoje? –
Só falto dar pulinhos de alegria.
— Tem o kit "Não me deixe na sofrência", e ele é maravilhoso para a
ocasião, contém quatro trufas de chocolate, recheadas com creme de avelã,
uma pitada de ingrediente surpresa afrodisíaco que faz toda diferença,
caixinha em formato de coração e vai com cartão exclusivo da Ana  Doces. O
que acha? – Ansiosa, aguardo a resposta.
— Acho que você vai me levar a falência, mas eu aceito a sugestão,
preciso do perdão da patroa. – Por fora continuo plena enquanto que por
dentro já fiz várias dancinhas, começar o dia vendendo meus bombons é
maravilhoso.
— Na verdade eu estou ajudando você a salvar seu casamento e isso não
tem preço. – Ele se diverte, me informa que em meia hora passa para buscar a
encomenda, então lá vou eu ajeitar tudo direitinho, inclusive o cartão... Neste
ritmo rotineiro, o dia se vai.
Às dezoito horas, faltando apenas trinta minutos para fechar a
floricultura, estando toda trabalhada na esperança, olho o meu celular e mais

uma vez não encontro uma mensagem de Alberto, será que ele está tão
cansado assim que não responde nem um "boa tarde"?
Ainda com os pensamentos na conversa que tive pela manhã com minha
patroa, resolvo abrir o único kit de doces que sobrou, o "Ele não te merece."
onde contém quatro brigadeiros gigantes e assim eu vou comendo um a um,
até que a tela do meu celular se ilumina e eu volto a ficar parcialmente bem.
"Amor, desculpa não entrar em contato contigo hoje, estou com
saudade de ouvir sua voz, mas meu dia foi tão corrido que nem tive tempo
de almoçar. As coisas aqui no trabalho estão a todo vapor e novas
oportunidades estão surgindo.
PS- Estou contando as horas para te ver.
Beijos, te amo, Ana.
Boa noite."
O que leio não é o suficiente para me deixar feliz, então resolvo ligar,
para meu desespero, a ligação vai direto para caixa de mensagens e só sobra a
opção de enviar um outro SMS.
"Entendo que seu dia seja corrido, estamos focados no nosso objetivo
em comum, mas será que você nem tem tempo para uma ligação de boa
noite?
Você não era assim, lembro-me que me ligava até quando estava
almoçando e quase dormindo.
Viver tão longe é complicado e sem esses pequenos gestos ainda fica
pior.
Que venham logo as suas férias, pois estou achando que nossa decisão
de você ir logo para cidade na intenção de lutar pelo nosso futuro, não está
sendo uma boa ideia.

Beijos."
Após fechar as portas e o caixa, caminho até o singelo escritório onde
tem um pequeno cofre onde guardo um pouco mais de duzentos e cinquenta
reais que o dia rendeu e me apronto para sair.
Como sempre, no caminho de casa, passo no mercadinho onde compro
mais materiais para doces, o pão e algum mantimento que precisa ser reposto.
— Boa noite, Ana . – Sou surpreendida por uma antiga amiga da época
da escola e nos abraçamos. — Tenho que te contar a novidade, marquei meu
casamento para daqui a seis meses e eu estou tão feliz que já estou ansiosa
para encomendar as flores contigo. – Meu coração se enche de alegria, bem
me lembro que Dani sonhava desde nova com este momento.
— Parabéns, Dani. Que vocês sejam muito felizes. E sobre as flores,
passa sim lá na floricultura, com certeza vamos fazer um orçamento bem
camarada. – Ela se aproxima como se estivesse prestes a me contar um
segredo.
— E o seu casamento vai sair quando? – Ai Deus! Essa é a pergunta que
mais ouço desde que uso uma aliança de compromisso.
— Ainda não marcamos, em breve saberemos a data. – Vejo Dani
praticamente em uma luta interna e eu tenho vontade de fugir do
interrogatório que obviamente está chegando.
— Ah, que bom saber disso, confesso que estava preocupada, fiquei
sabendo que seu noivo não aparece aqui na cidade há meses. – Uau! Todos
realmente por aqui estão a par dos acontecimentos.
— Dani, eu preciso pagar essas compras e ir para casa, estou muito
cansada. – Em resposta a minha direta educada, recebo um abraço com um
tom de consolo e enfim nos despedimos.

No percurso para casa, praticamente vou correndo pelas ruas de
paralelepípedo para evitar mais interrogatório e após duas esquinas, avisto o
meu lar doce lar.
Como todas as noites, minha mãe e seu esposo que carinhosamente
chamo de pai, acompanham a novela romanticamente abraçados como se
estivessem ainda namorando.
— Boa noite família. – Como se não quisessem perder as cenas, me
cumprimentam sem ao menos me olhar. — Onde está Bruno? – Pergunto por
meu irmão e com gestos eles apontam para o corredor, imagino que esteja no
seu quarto.
Após deixar as compras na mesa da cozinha, decido tomar uma ducha,
ao passar pela porta do quarto do meu irmão, ouço algo que me deixa
completamente alerta e no impulso abro a porta.
— Ai meu Deus! – Encontro meu menininho de dezessete anos
praticamente tirando a blusa da namorada que eu nem sabia que ele tinha.
— Fala baixo, Anastácia . – Ele me repreende, a menina que eu bem
reconheço se ajeita enquanto convive com sua vergonha. — Nossos pais não
sabem que Rute está aqui.
— E não iam demorar a saber pelo barulho. – Apesar de morrer de
vergonha, sinto que preciso fazer meu papel de irmã mais velha. — Gente,
vocês podem namorar sem tirar a roupa e sem ser no quarto, sabiam? Eu não
quero ser tia, ainda. – A menina faz sinal da cruz, enquanto Bruno me olha
como se quisesse me matar. Nossa! Eu realmente irritei meu irmão.
— Não é só porque você consegue namorar a distância que eu consigo,
nós somos normais e temos desejos. – Ai merda, essa doeu.
— D-desculpa. – Viro-me para sair do ambiente, mas logo ele corre ao
meu encontro, então sou abraçada e jogada na cama.
— Foi mal, maninha. – O abraço do meu irmão, apesar do rápido
desentendimento, cai como um balsamo e eu me permito chorar. — O que

foi, Anastácia ? – Sem me importar com a presença de Rute, desabafo sobre o que
estou vivendo nos últimos meses onde me sinto em um reality show da nossa
pequena cidade e ele me abraça ainda mais forte.
— Alberto gosta de você, isso ficou bem nítido durante todo namoro, e
também quando ele a pediu em casamento antes de viajar a trabalho e sobre a
distância, nossos pais namoraram mais de um ano, lembra? – Rute se
aproxima.
— Pois é, não liga para nada disso, as pessoas aqui são meio que
vidradas nas vidas alheias mesmo. – E eu nem acredito que no auge dos meus
vinte anos, um casal de menores de idade, me consolam.
— Obrigada de verdade, vocês salvaram a minha noite. – Conversamos
mais um pouco, depois decido dar um pouco mais de liberdade aos dois,
levanto-me para sair do quarto e despeço-me de ambos com um abraço. — Se
comportem e caso não consigam, se protejam.
— Pode deixar, Anastácia . Sempre nos protegemos. – Rute confessa
cobrindo o rosto me fazendo até rir e quando estou saindo, ela me faz um
convite sobre um show beneficente da igreja que vai ter na praça.
— Nos vemos amanhã então. – Amo a ideia pois eu realmente preciso de
um passeio.
Como todas as noites, após um jantar digno de me deixar parecendo uma
grávida, a Anastácia  que ama cozinhar e sonha em um dia ser chefe de um
enorme restaurante entra em ação.
Primeiramente vou no armário onde guardo os ingredientes e ao abrir a
porta, fico olhando um a um.
Entre barras de chocolate ao leite e cacau cem por cento, penso no
incentivo do dia para criar um novo doce e por incrível que pareça, é a
saudade que sinto de Alberto que vai reger os meus dons culinários.
— E lá vou eu criar a "cura da saudade." – Mesmo com os olhos
marejados causados pelas circunstâncias, seleciono de início uma caixinha de

creme de leite, leite condensado, manteiga da melhor qualidade e duas barras
de chocolate, uma ao leite e outra amargo. E na minha cabeça eu já sei como
será o bombom e sendo assim, começo a raspar separadamente cada pedaço.
Com o chocolate amargo, faço uma calda bem densa, de forma alguma
pode ficar no ponto de soltar do fundo da panela.
Com a barra de chocolate ao leite, produzo um típico brigadeiro gourmet
e olhando para as duas porções já imagino a explosão de sabores que terei ao
me deliciar com cada pedacinho.
Começo a produção. Primeiramente modelo o brigadeiro gourmet de
forma tradicional e com a receita, eu consigo trinta unidades.
Logo depois, aqueço novamente a calda e vou mergulhando um a um e
para completar polvilho cacau em pó misturado a raspas de chocolate
amargo.
— Isso parece bom, hein? – Meu irmão Bruno invade a cozinha
acompanhado de Rute e eu os sirvo com duas unidades para cada.
— Chegaram na hora certa, vocês vão provar "a cura da saudade." – Eles
se divertem, deixam os bombons esfriarem um pouco e enquanto jogamos
conversa fora eles finalmente provam. Eu amo ver os olhinhos da Rute
praticamente revirando e meu irmão como sempre muito artístico quase
dançando.
— UAU! – Rute pega o próximo e dessa vez come bem devagarinho. —
É-é maravilhoso, esse doce tem sabor de encontro, Ana. – Ahhh, eu amo o
que ouço.
— Isso, encontro é a palavra. – Meu irmão morde mais um pedaço. —
Primeiro ele começa amargo como a saudade e depois vem o doce do
encontro. – E então eu como a minha pequena porção, deixando uma lágrima
de emoção fluir. Para mim a comida é uma arte e conseguir deixar o seu
sabor descrever tal sentimento é maravilhoso. — Quero mais, mana.
— Não. – Nós três gargalhamos com minha entonação ao responder

negativamente e eu como mais um pedacinho do meu bombom. — Esses eu
vou vender, vou fazer cinco kits com cinco bombons em cada caixinha em
formato de coração partido com a etiqueta colando as partes. – Explico e
graças a Deus os dois entendem.
— Sabe, eu tenho seu irmão comigo e ele é meu amor. – Apesar de eles
serem novinhos, eu acho tão fofo os olhares e o que ouço. — Não tenho mais
meu pai e esse doce me fez pensar que apesar de todo amargo da vida, a parte
gostosa sempre vem. Enfim, cunha eu quero uma caixinha. – Rute me
emociona com suas palavras e meu irmão sendo bastante cavalheiro compra
para namorada o mimo.
Eu acabo vendendo pelo preço de custo apesar dos protestos dos dois.
Meu maninho sabe que junto dinheiro, que os doces são pelo menos
cinquenta por cento da minha renda, já que na floricultura ganho meio salário
mínimo e ainda assim agradecendo a dona Camélia. Em uma cidade do
interior não é fácil conseguir serviço e ele conseguiu o de menor aprendiz na
agência bancária.
Quando eles saem de mãos dadas demonstrando o quanto estão
apaixonados, termino de embalar os doces, coloco as caixinhas no local
refrigerado apropriado e vou para o quarto escrever o cartão personalizado
que acompanha o mimo.
"Com estes bombons, quero te lembrar que apesar do amargo, o doce
da vida sempre volta...
Com carinho,
______________"
Obrigado por escolher, os doces da Anastácia."
Imprimo quatro unidades e pensando positivamente sobre o futuro vou
dormir.

Acordo com meu celular tocando, estico-me para atender e quando vejo
quem é, meu coração até aquece um pouquinho, mais não o suficiente para
sarar a dor que a distância traz.
— Te acordei, amor? – Ahh Deus, será que estou sonhando?
— Sim, mas não tem problema. Já têm dois dias que a gente não
conversa e só mensagens não é tão bacana. – Alberto passa os próximos
minutos me pedindo perdão, explicando sua rotina pesada nos plantões da
fábrica e dos turnos trocados.
— E eu sei que nada disso justifica, minha linda. E por isso tenho uma
notícia para você. – Um suspiro de esperança me acomete e eu aguardo na
linha após respirar fundo. — Hoje, no início da noite, estarei aí matando a
saudade de você e eu ficarei todo final de semana ao seu lado.
— Jura? – Meus olhos se abrem de vez. — Não brinca com algo tão
sério, pois você sabe que cheguei no limite da saudade. – Ouço sua risada que
tanto gosto e sentia falta.
— Sim, já estou na rodoviária pronto para encarar as próximas quase que
intermináveis horas de viagem. – No momento que ouço a sua promessa,
sinto um misto de emoções. Sei que estou feliz, porém eu achava que ficaria
mais ao ouvir tal notícia. O que está acontecendo comigo? Será que a
distância me esfriou? — Agora tenho que desligar, na estrada a ligação vai
cair, beijos. Te amo.
— Beijos, e-eu também. – Encerro a ligação, pronta para encarar um
novo dia.
Mesmo com o coração apertado sem saber bem o motivo que mexe com
minhas emoções, no final da tarde antes de fechar a floricultura, a cada
minuto, quase que involuntariamente fixo meu olhar na direção da entrada do
estabelecimento, pois estou ansiosa para ver Alberto chegando e como se o

destino quisesse me testar, passam trinta minutos desde o horário previsto
enviado por ele através do SMS na sua última parada.
— Ai meu Deus, cadê o Alberto? – Fecho os olhos no momento que
busco respostas divinas.
— Olha eu aqui para responder a sua prece. – Meu coração volta a
acelerar, abro os olhos e então eu o vejo largando a mochila no chão e vindo
em minha direção todo lindo com sua altura e corpo másculo que sempre me
hipnotiza. — O pneu do ônibus furou e atrasou um pouco, também passei em
casa rápido e estou aqui para ficar contigo a noite toda. – Seus olhos
castanhos brilham ao me olhar e eu não consigo dizer sequer uma palavra
enquanto ele me abraça, apenas correspondo o gesto e ao contrário do meu
bombom "a cura da saudade" não sinto o sabor adocicado cobrindo o amargo
que a falta dele causou durante tanto tempo, nem quando seus lábios tocam
os meus.
— Ainda bem que chegou, passei o dia ansiosa e com o coração
apertado. – Nossos olhares ficam presos um no outro e ele acaricia meu rosto.
— Temos tanto para conversar, o que está acontecendo conosco? – Ele toca
carinhosamente meus lábios.
— Você está linda, na verdade ainda mais e sobre nós, sei que temos que
conversar, estou ciente que a distância não está ajudando, mas eu tenho um
plano. – Ele respira fundo parecendo cansado. — Podemos conversar após o
evento na praça? Encontrei seu irmão e ele também me chamou, na verdade
me obrigou ao dizer que você também vai.
— Por mim tudo bem, prometi a Rute que iria e também será bom pois
todos nossos amigos estarão por lá, você vai poder matar a saudade deles.
Após uma conversa rápida e alguns beijos, encerro as atividades da
floricultura e de mãos dadas com meu noivo, que finalmente
 apareceu,
caminhamos até minha casa, tenho certeza que hoje os boatos serão

amenizados.
Como meus pais estão presentes e também meu irmão ciumento, me
arrumo em meu quarto sem a presença de Alberto enquanto ele usa as
dependências de Bruno e no meado da noite, lá vamos nós para festa,
acertados que na volta precisamos conversar e faremos isso provavelmente
durante a madrugada.
Em cidade pequena, tudo vira manchete e como chegamos cedo demais
na praça, todos os presentes nos enxergam, pois o evento ainda não começou.
Entre barracas de doces, salgados, bebidas variadas e embalados ao som
instrumental da música religiosa, nossos amigos em comum vêm nos abraçar
e todos querem saber o motivo da demora de Alberto aparecer.
— Ahhh, você veio, cunha. – Rute me surpreende com sua empolgação e
em seguida cumprimenta Alberto com um aperto de mão. — Olha aí você
provando a parte doce do seu bombom. – Ah Deus! Ela é tão romântica e
para não ser um balde de água fria, apenas respondo com um sorriso.
A verdade é que pensei que estaria mais feliz neste momento, mas
acredito que meu desânimo pode se dar ao fato de ainda não termos tido
tempo para ficarmos a sós em um momento mais íntimo.
— Ana, quer cachorro quente? – Alberto me pergunta e meus olhos logo
brilham, as vezes meu desânimo seja apenas fome.
— Por favor e eu quero dois. – Ele me diz que comprará também para
Rute e meu irmão e logo se afasta enquanto fico observando o pequeno palco
onde uma televisão enorme de cinquenta polegadas está ligada no momento
que passa o telejornal do estado.
Entre uma conversa e outra, o responsável do som pluga a TV no alto-
falante e para minha surpresa, começa uma reportagem que eu reconheço de
imediato, o trabalho de Alberto.
"Estamos aqui na indústria GeraEletro para mostrar a importância do

estudo e do preparo do jovem para o futuro. Hoje, cinco jovens técnicos em
engenharia elétrica foram selecionados para estudarem no exterior, esta é
uma empresa que investe nos seus funcionários que sabem o que querem
da vida e tem um futuro promissor. Dentre eles está o Técnico Alberto
Lima que ano que vem dará um enorme passo, mudando completamente o
seu destino.
— Como você se sente sendo um dos selecionados?
— Com certeza eu vou realizar o meu grande sonho."
Enquanto ouço a resposta de Alberto se repetindo em minha cabeça, a
cidade parece ficar em silêncio, no mesmo momento sinto minha mão sendo
apertada por Rute que fica com os olhos marejados, começo a ouvir
cochichos de todos os lados, viro-me em direção ao meu noivo que paralisado
me olha segurando uma cesta de lanches e sendo parabenizado por alguns
amigos.
— Ana . – Meu irmão toca em meu braço, mesmo sem sentir muito meus
pés, eles se movem e eu vou abstraindo tudo ao redor, pois não tenho como
disfarçar que assim como toda minha cidade, acabo de saber a novidade, a
diferença é que eu uso uma aliança que no momento pesa em minha mão
como se fosse chumbo.
— Quando você ia me contar? – Passo por Alberto segurando qualquer
emoção extravagante e só penso em vencer todo obstáculo que a praça se
transformou, mais alguns quarteirões e chegar em casa, porém ele me segue.
— Hoje. – Vejo quando ele entrega a cesta ao amigo e vem ao meu lado.
— Anastácia , para por favor, temos que conversar, não era assim que você ia
descobrir tudo, eu não sabia que a entrevista ia ao ar hoje. – Continuo
caminhando sem respondê-lo por não querer ficar ainda mais em evidência
perante a vizinhança até chegar na varanda da minha casa, sendo seguida por
um Alberto que nunca vi na vida, completamente desesperado.

— Agora você pode falar.
— Podemos conversar no seu quarto? – Respondo que prefiro um
ambiente neutro, longe de qualquer tentação e ele senta ao meu lado. — Eu
preciso te explicar tanta coisa, Ana. – Ele toca em minha mão que fica presa
a dele de forma automática.
— Comece, por favor.
— Quando consegui o emprego e ficamos noivos, eu tinha acabado de
fazer vinte e um anos e eu pensava como a maioria dos jovens daqui. – Não
gosto muito do que ouço e passo um olhar de desaprovação que ele entende.
— Não leve para o lado pessoal meu amor, eu aprecio todos os nossos planos
e sonhos, mas fui pego por outra realidade. Assim que cheguei na cidade
grande, percebi que o valor que eu ganhava trabalhando na padaria aqui, não
pagaria nem o nosso transporte por lá durante um mês, é tudo tão caro que
você nem imagina. – Ele respira fundo e eu vejo sinceridade em suas
palavras. — Aquele estilo de apartamento que pensamos em financiar lá na
cidade, que no site as fotos eram lindas e com dez mil daríamos entrada no
banco, eles ficam em uma área de risco, para você ter ideia, até na janela do
terceiro andar têm grades e o bairro tem toque de recolher. – Eu o vejo com
os olhos marejados e várias perguntas rondam meus pensamentos.
— Por que você nunca me contou suas aflições e a realidade da cidade?
– Eu já sabia que não seria tão fácil, mas não a tal ponto.
— Ana, a cada vez que falamos, você despejava em mim seus sonhos
que eu quero vê-la realizando, eu prometi que você estudaria e seria a grande
chefe em um famoso restaurante e para isso eu precisava também de dinheiro
e foi então que abriu a seleção na indústria. – Ele olha para baixo e aperta a
minha mão. — Nos últimos quatro meses, quando não estava trabalhando,
estava estudando, principalmente inglês, ou desmaiado de tanto cansaço no
sofá ou cama do alojamento, eu precisava melhorar de vida, por mim, por
nós.
— E foi aí que você começou a sumir, teve dias que você nem me ligou.

– Paro por um momento para organizar as ideias. — Nossa, eu imaginei
tantas coisas, várias pessoas na verdade especularam todas as possibilidades,
até traição. – Ele abaixa a cabeça.
— Traí nossos planos ao não conseguir visualizá-los na mesma ordem de
antes, fui imaturo por te esconder tudo e a verdade é que eu mudei. Enquanto
aqui as pessoas se casam cedo demais, no mundo afora, na nossa idade os
jovens viajam, estudam e esse mundo me encantou. – Ele volta a me olhar. —
Nunca tive outra mulher, posso ter me transformado em um cara ambicioso,
que não soube se comunicar, mas em todas minhas ambições você está
inclusa.
— Você me deixou iludida enquanto a sua vida andou, isso não se faz,
Alberto. – Tiro a minha mão da dele e lembrando de todos os bombons que
fiz durante as noites para vender no outro dia, fico arrasada, pois a verdade é
que mesmo amando cozinhar, tendo o apoio da minha família que apesar de
ser simples não me deixa faltar nada, eu também poderia estar estudando ao
invés de me esforçando tanto para ir para cidade.
— Me perdoa, por favor. – Ele me abraça. — E se nós vencemos oito
meses, podemos vencer esse tempo longe um do outro, eu te amo. – Sinto
carinho, desejo, bem, na verdade fico até feliz de vê-lo realizando seus
sonhos, só que não consigo mais dizer as três palavras.
— E-eu pensei que estava vivendo o amor que tudo suporta, você é meu
primeiro namorado, meu primeiro homem, com você descobri todos os
prazeres, isso tem um significado enorme e eu te esperei, mas sua ausência
comprovou aquela historinha que ouvimos desde crianças, a da plantinha que
não recebe cuidado e fica murcha. – Ele volta a entrelaçar as mãos com as
minhas.
— E-eu tenho amor o suficiente para te reconquistar, Anastácia ... – Nós nos
olhamos por alguns segundos e eu sei que preciso tomar uma decisão.

Continua...

BELA MENTIRA SINOPSE


Sinopse

A vida de Cristhian Grey sempre foi simples. Ele respira
futebol americano desde que pode lembrar-se. Como o
Quarterback mais promissor do país seu propósito é fazer
o seu time ganhar o maior torneio universitário de futebol.
Isso até que Anastácia Stelle, a namorada do seu colega de time
surge, tirando sua vida completamente de ordem e
mostrando como o complicado poderia ser realmente bom.
 Anastácia Stelle sempre foi perfeita. A filha perfeita, a aluna
perfeita, a namorada perfeita. Agora na universidade, o seu
maior objetivo é se formar em medicina e fazer o seu
relacionamento com o namorado da escola dar certo. 
Contudo, a vida é cheia de surpresas e quando Anastácia 
descobre que o seu namorado está a traindo ela forma um
plano pra se vingar dele, fingindo namorar o Quarterback
do time de futebol.
 O que eles não imaginam é como um grande amor
poderia surgir de uma simples mentira.

Beijos
Comentem por favor.

Continua.....

BELA MENTIRA PERSONAGENS PRINCIPAIS





Bela Mentira personagens principal
“Quando o amor surge 

Cristhian Grey 

Anastácia Stelle 

Raymond  Stelle 

MARQUE  AMIGO DO CRISTHIAN 

amiga Anastácia 

colega de quarto da Anastácia 

Luke namorado da Anastácia 

O Advogado capítulo 2



Capítulo 2

— Tudo bem, ele trabalha em qual hospital?
A minha simples pergunta faz a minha patroa revirar os olhos em um
gesto impaciente e eu não entendo o motivo.
— Ele não é médico, é advogado Anastácia. – Ela explica
impacientemente. — Agora vá, ele já deve estar te aguardando e não
esqueça, apenas entregue o documento nas mãos do Dr. Cristhian.
Tento passar confiança para ela com um sorriso, o que não ameniza a
careta que a minha patroa faz.
— Tudo bem, não se preocupe.
Seguro o documento como se fosse a minha vida e começo a
caminhar.
— Anastácia.
— Oi, senhora.
— Você deveria investir melhor nas suas roupas, fica muito bonita
arrumada.
Contenho meu riso, pois com certeza acabo de ouvir uma piada e eu
tenho outras prioridades.
— Gostaria muito, senhora. Mas no momento estou juntando
dinheiro para fazer um curso.
Dorothy me observa enquanto positivamente balança a cabeça.
— Sua mãe ficaria bastante orgulhosa de você.

Isso eu sei que sim, ela não queria mesmo que passasse a vida
trabalhando no serviço doméstico, o sonho da minha saudosa mãe, é que eu
fosse para faculdade.
— Eu prometi para mamãe que eu não desistiria de estudar, quero ser
professora ou assistente social.
Meus olhos ficam marejados, faz tão pouco tempo que ela se foi.
— Faz bem.
Ela responde secamente e com gestos me manda seguir. Após me
despedir, caminho até a saída de casa, ao abrir a porta vejo que Barreto já
me espera fora do carro e com a porta de trás aberta.
— Já que está vestida tipo patroa, vou te levar como se fosse uma,
agora entre antes que alguém veja.
Pela primeira vez no dia ou em semanas ele me diverte, aceito fazer
parte da brincadeira e vou para parte de trás.
— Vê se não se acostuma.
Eu poderia facilmente me acostumar com o conforto, ou
simplesmente morar dentro do carro que é mais confortável que minha
cama.
— Você fala como se eu só andasse aqui.
O semblante de Barreto fica um pouco mais sério, vejo pelo
retrovisor.
— Infelizmente eu sei que não, mas você merece, delícia. Olha, eu
não tenho um carro desse, mas tenho um celtinha que faço questão de te
colocar dentro dele.
Ele dá uma piscadela e eu reviro meus olhos na mesma hora. Será que
ele ainda não percebeu que não vai rolar?
— Esqueça, eu jamais vou entrar em seu carro. – Tento controlar
minha língua, mas é em vão. — Barreto, não entenda errado, mas eu não te

vejo como namorado, você tem mais que o dobro da minha idade.
— Porra, que viadagem de preconceito é essa, novinha? Eu posso te
ensinar coisas que nenhum garoto pode.
— Não tenho preconceito nenhum, apenas quero namorar um rapaz
mais jovem.
Ele fica automaticamente sério e segue o caminho, sem mais dizer
uma palavra por um longo trajeto, até parar em frente a um prédio de
aproximadamente uns vinte andares, com o vidro fumê na parte externa e
bastante luxuoso. Acabo agradecendo mentalmente pela doação das roupas
que acabo de ganhar.
— Vai logo, Anastácia. Não me diga que está esperando que eu abra a
porta.
Ele me assusta com o tom de voz, percebo de imediato que o corte
que dei há minutos, pôs fim ao clima amigável.
— Calma, não precisa falar assim comigo. Eu já vou.
Ainda me sentindo tensa, abro a porta do carro e antes de sair...
— E não demore, você mora no fim do mundo e eu tenho que te levar
em casa.
Ele avisa, fecho a porta e caminho toda apressada tentando não trocar
as pernas. Merda! Eu não sou obrigada a aguentar suas piadinhas o tempo
todo.
Assim que entro no prédio, meus olhos ficam encantados com o
ambiente, eu já estou acostumada com o luxo da casa da minha patroa, mas
nada, absolutamente nada se compara com esta recepção, cheia de lustres
que mais parecem cascatas de pedras preciosas, um chão que nem posso

sonhar em andar de perna aberta pois minha calcinha pode aparecer no
reflexo, uns sofás mais largos que minha cama de solteiro e homens e
mulheres que parecem ter saído de revistas de moda.
— Boa tarde, posso ajudá-la?
— Pode sim.
Respondo no automático, vou me virando em direção a voz e paro
assim que observo a jovem que me tirou das minhas viagens. A elegância
dela simplesmente exala pelo ar.
— N-na verdade, estou procurando o Dr. Cristhian, ele está me
esperando, sou Anastácia, a funcionária da Sra. Dorothy.
Ela me explica que é para eu ir ao último andar, que ele já me aguarda
e me dá um código para o elevador. Pelo o que ela me explicou, só
funcionará duas vezes, para minha subida e descida.
— Obrigada por me ajudar.
— É o meu trabalho, sou Natália, a secretária do Dr. Cristhian.
Uau! Eu nunca imaginei que existia uma secretária tão chique.
Apertamos as mãos rapidamente e enquanto aguardo o único elevador que
vai até o último andar, começo a ficar nervosa, provavelmente por estar
acanhada com o ambiente.
Assim que entro no elevador rodeado de espelhos, aproveitando que
estou sozinha, digito o código e enquanto o tempo passa, conto andar por
andar.
Até que a porta se abre, em um ambiente ainda mais luxuoso. Uma
mistura de escritório com sala de reunião, onde até mesmo tem um bar, eu
me sinto em uma novela. Ao olhar para os lados, observo que estou
sozinha, e curiosa, caminho pelo ambiente para olhar a vista da enorme
janela de vidro que toma toda parede.
—Nossa! I sso com certeza dá medo.

Sussurro baixinho, minhas pernas parecem que vão falhar, fecho os
olhos e dou quatro passos para trás, até esbarrar em uma parede humana
enorme, e antes mesmo que eu possa raciocinar, seu perfume maravilhoso
invade minhas narinas me deixando arrepiada.


Cristhian Grey 

Para minha satisfação, ouço que ganhamos mais uma causa, viro-me
em direção a minha cliente que respira ofegante por causa da ansiedade que
lhe acometeu a alguns minutos antes do veredito, aperto sua mão para a
parabenizar, ela me agradece ainda com a voz trêmula e então caminho para
o estacionamento.
—Dr. Cristhian.
Paro ao ouvir o chamado e ao virar na direção da voz, vejo o advogado
perdedor da causa vindo ao meu encontro. Puta merda, eu não mereço.
—Dr. Claudio.
Apertamos as mãos.
—Parabéns, devo admitir que seu último argumento me pegou
desprevenido.
Continuo o observando, pois sei bem que seu elogio provavelmente
tem algum motivo.
— Obrigado e sobre o argumento, um bom advogado sempre tem um
para o grand finale.
Ele concorda com gestos.
— Eu sei, mesmo que esse argumento sejam milhões na conta da juíza?

Porra, será que quem perde nunca aceita?
— Poupe-me da sua acusação, até porque isso pode te render um processo por difamação.
Não fico para ouvir sua resposta sem cabimento, até porque sinto-me cansado e ainda preciso voltar a empresa.
Ao chegar no estacionamento, para minha surpresa, encontro minha
cliente encostada no meu carro Aston Martin, ao observá-la, conheço muito
bem o seu ar de felicidade, o rosto corado e ansiedade na sua respiração
acelerada, a ruiva linda que acompanhei nos últimos meses por causa da
contratação está querendo aquilo.
— D-desculpa te esperar aqui, mas acho que ainda não te agradeci o
suficiente por hoje.
Dou mais dois passos em sua direção e observo ao olhar para baixo através da roupa seu mamilo teso e a safada com a boca entreaberta.
— Acredito que já acertamos os honorários na G&G Advogados.
Ela toca em meu ombro e aperta o local, provavelmente curtindo o que
sente.
— Você sabe do que estou falando doutor. Com certeza percebeu que
eu...
Toco em seus lábios para silenciá-la.
—Eu percebi que você quer me dar desde que assinamos contrato, mas
sou profissional e não fico com clientes.
Ela geme ao ouvir que eu sei da sua vontade.
— Já que você sabe, preciso lembrá-lo que não temos mais nenhum vínculo?
Ela parece sedenta e eu apesar de cansado, seria relaxante ter algum prazer inesperado, então me aproximo colando nossos corpos após olhar que
o ambiente está vazio.
— Eu preciso ser sincero.

Sussurro em seu ouvido.
— Por favor, seja.
Gosto de sentir a sua urgência na voz e respiração.
— Se você quer apenas sexo e sabe lidar com momentos casuais, entre
no meu carro e tire sua calcinha, não vamos ter mais que meia hora ao
chegarmos no meu escritório.
Me afasto, ela me olha um pouco surpresa, mas seus olhos brilham
com a luxuria que percorre seus pensamentos, tenho certeza que sua boceta
já molhou toda.
Já que temos um acordo, abro a porta, Clarissa entra rapidamente, vou
para o outro lado e assim que me acomodo, ela me puxa para me beijar. Será
que ela não entendeu? Se ainda não, eu preciso ser claro, para o seu próprio
bem.
— Clarissa, nós só vamos foder, somos adultos, teremos apenas o que queremos, prometo que você vai me sentir em sua boceta por mais de uma
semana, e adiante a minha vida, tire sua calcinha.
De um modo extremamente safada ela levanta a saia, me mostrando as
suas coxas, com certo esforço e movimentando o quadril, segura as laterais
da calcinha que vejo que é minúscula e vermelha como seus cabelos, depois
a guarda na bolsa e ansiosamente fricciona as pernas. E eu já quero vê-la
pedindo mais.
Com uma mão no volante dirijo sem me preocupar em passar marchas
já que meu carro é automático, com a direita aciono uma playlist sensual e
para deixar Clarissa ainda mais excitada, repouso minha mão em sua coxa.

Para minha satisfação, em resposta, ouço um gemido, a safada começa a
abrir as pernas e eu gosto muito da sua atitude.
— Quer começar a gozar aqui?
Ela coloca a mão por cima da minha.
— N-não é a-arriscado?
Pode até ser, mas não para mim que tenho prática.
— Se abra mais.
Ordeno, assim ela faz, demoradamente acaricio a parte interna das suas
coxas, ela rebola para frente me dando mais acesso, geme alto chegando ao
ponto de acariciar os seios e quando meu dedo encontra seu clitóris inchado,
ela grita meu nome.
— Não para, Cristhian. Não para.
A safada pede desesperada quase tirando o cinto de segurança,
ignorando o trânsito e sentando em meu colo.
— Já vamos chegar, mas uma esquina e você vai gozar no
estacionamento.
Acaricio a entrada da boceta com dois dedos afastando os grandes
lábios e introduzo, ela vai me sugando e gemendo alto enquanto entro no
estacionamento da empresa e desligo o carro.
A sua empolgação e carência é tanta que fico compadecido de tirar meus dedos para irmos logo para sala, então aumento o movimento até ver a
ruivinha pegando fogo, revirando os olhos, apertando os seios e molhando minha mão toda.
Se tem algo bonito de se ver, é uma mulher perdendo o controle ao gozar, isso me excita demais a ponto de sentir meu pau doendo ainda preso
na calça.
— Nossa! E-eu ejaculei?
Ela parece surpresa ao perceber que teve um squirt* e seu rosto está
completamente avermelhado. Será que é a primeira vez?

— Sim.
Squirt – Ejaculação feminina
Seco minha mão em um lenço.
— Vamos, Clarissa. É só o começo.
Vou para o outro lado do carro, abro a porta, a ruivinha parece não se
sustentar nas pernas, aciono o botão para chamar o elevador e ficamos
esperando de forma disfarçada, com certeza não quero nenhum funcionário
falando sobre minha vida.
Assim que o elevador chega, entramos, insiro o código que nos levará
para o último andar numa porta que se abre diretamente em minha sala,
carrego a ruivinha safada que cruza as pernas em meu quadril, ela sente meu
martelo duro, pronto para dar o veredito, rebola no meu pau e aproveitando a
proximidade, passo minha mão por baixo da sua coxa, acaricio sua boceta e
em seguida seu cu com meu dedo lubrificado e a gostosa grita de prazer.
— Você quer aqui também?
— Simmm.
Ela me dá a permissão, com certeza já está acostumada.
— Vou te comer todinha, de todas as formas, posso?
Provoco descaradamente sussurrando e acariciando sua bunda.
— Deve, por favor.
Ao chegar na sala, a coloco no sofá, peço para que ela fique toda
empinada de quatro enquanto busco as camisinhas na gaveta. Quando volto,
abro minha calça, visto meu pau que lateja em minha mão, abro sua
bocetinha e quando estou pronto para meter, ouço o aviso do elevador, sei
que alguém foi liberado para subir, então lembro-me, uma cliente está
chegando, pois marquei o horário mais cedo. Porra!
— Vá para banheiro, uma cliente está subindo.

Clarissa fica inconformada, vai quase chorando pela frustração, vou junto para me ajeitar, livro-me do preservativo, aguardo algum tempo para
meu pau voltar ao normal, apronto-me e após lavar a mão, volto para sala.
Para minha surpresa, vejo uma jovem caminhando em direção a
enorme janela. Com pernas gostosas de apertar, saltos altos que me
enlouquece e uma saia com um certo movimento que me hipnotiza. Ao
levantar minhas vistas, vejo seus longos cabelos negros quase em sua cintura
e como um ímã, caminho em sua direção, ela está tão concentrada ao olhar
para baixo que não me nota.
Quando chego bem perto, ela dá alguns passos para trás e seu delicioso
quadril vem em direção ao meu pau, fazendo com que ele acorde novamente.
Porra!
—Ahhh, me desculpa.
Ela se vira desesperada, no mesmo instante se embola em suas próprias
pernas e eu a seguro rapidamente. Por causa da aproximação, seus seios
acabam roçando meu peitoral e minha mão aperta sua cintura.
Que mulher é essa que mesmo tão nova e com olhos tão cansados é extremamente linda?

Continua....

O Advogado capítulo 1


Capítulo 1

Anastácia Stelle 

Arrumo, passo, cozinho, lavo, corro atrás de crianças quando a patroa
recebe visita, acumulo mil e uma funções e no final do mês, nem mil e
duzentos continhos eu levo para casa.
Casa essa que praticamente não vivo, ou melhor, chego tão esgotada
que apenas durmo, desmaio e vegeto após um longo dia de trabalho e mais
de duas horas de trânsito onde enfrento um ônibus lotado e um metrô que
me leva para o subúrbio. No final do dia sinto-me tão cansada, esgotada,
que meus dezoito anos tem o peso de no mínimo o dobro.
Eu sei que posso parecer uma garota que só murmura sobre a
exaustiva realidade, mas na verdade eu agradeço a sorte que tive ao
encontrar trabalho na casa da dona Dorothy Menezes, uma senhora que me
acolheu após a morte de minha mãe que trabalhou para sua família a vida
toda.
— Sonhando com a vida, Anastácia?
Assusto-me com a voz da minha patroa e por pouco não deixo a
vassoura cair no chão impecável todo no porcelanato importado.
— Nãoooo, senhora! Desculpa, eu só parei para respirar um pouco.
Ela me observa e educadamente caminha em minha direção.

— Não tem problema, eu apenas quero que você me faça um favor e
até te dispensarei mais cedo.
Recebo a melhor notícia que me faz flutuar de felicidade.
— Preciso que você vá em um lugar e leve um documento. Deixe
tudo como está, se arrume e em uma hora, meu motorista vai te levar.
Fico curiosa, mas não estou em condições de questionar.
— Então vou me arrumar agora mesmo. Licença, dona Dorothy.
Começo a caminhar completamente animada pois levar um
documento seja onde for, vai ser de qualquer forma uma diversão, um
desvio na minha rotina de cão.
— Carla, volte aqui.
Ah! Será que ela se arrependeu?
— Oi?
Paro de caminhar, viro-me em sua direção e observo a minha patroa.
— Deixei no quarto que você guarda as suas coisas, uma mala de
roupas que foi da minha filha, muitas são novas, você sabe como Patrícia é,
compra sem pensar, nunca usa e vocês são quase da mesma idade.
Realmente Patrícia é bem consumista e um pouco mais velha que eu.
— Tenho que concordar, senhora.
Acabo comentando e por esse motivo minha pele branquinha queima
de vergonha, mas minha patroa sorri, pelo jeito não ultrapassei tanto o
limite.
— Pois bem, separei para você algumas peças, espero que sirvam.
Ela ainda tem dúvida? Deus bem sabe o quanto preciso de roupas, já
que as minhas estão bem surradas e apertadas, pois desde que minha mãe se
foi, eu não sei o que é comprar uma blusa.

— Tem uma mala menorzinha com sapatos também, sei que você
calça o mesmo número da minha princesa.
Controlo-me para não pular de alegria, pois as roupas e sapatos da
Patrícia são super lindas, na verdade, perfeitas demais para minha realidade.
— Agora vá, não quero que se atrase.
Agradeço os presentes e me retiro, quase que correndo para o quarto,
precisava desesperadamente ver o que ganhei.
— Para onde vai assim, delícia?
A voz perturbadora do motorista Barreto me faz interromper os
passos ao mesmo tempo que sinto o meu sangue fervendo.
— Dá para parar de me chamar assim? Eu não estou mais
suportando.
Ele se aproxima ainda mais praticamente me deixando sem passagem
e me forçando a empurrá-lo.
— Difícil não te chamar assim. Já se olhou no espelho, Carla? Você é
maravilhosa.
Reviro os olhos cansada e no limite, empurro Barreto. Logo depois
sigo ansiosa para o quarto até alcançar a mala que está em minha cama e
enlouqueço com o que vejo.
A quantidade das roupas suprirá minhas necessidades pelos próximos
três anos já que economizo bastante e os cinco pares de sapatos lindos, se
usados de forma bem alternadas, também terão uma boa durabilidade. Sem

falar na beleza de todas as peças, são de pirar qualquer uma e pouco me
importa se a moda já passou, pois são perfeitas.
A cada roupa que vou retirando da mala, meus olhos brilham, a
maciez dos tecidos, a delicadeza dos cortes, os tons mais perfeitos que já vi,
deixam meus olhos marejados, eu com certeza nunca ganhei algo parecido e
para minha surpresa, tem até vestido de festa.
Fico ansiosa para provar cada uma das peças, mas me lembro do meu
compromisso, então me levanto correndo, tomo um banho gostoso e volto
para o quarto, para pegar minha roupa, mas uma ideia surge. Por que não
usar algo novo?
Escolho um vestido azul um pouco justo, com um detalhe de um
tecido mais solto que tem no comprimento na altura da coxa, um pouco
acima do joelho. Para completar, escolho uma sandália bege, extremamente
delicada e me sinto outra, se não fosse por minhas olheiras que deixam ao
redor dos meus olhos um pouco avermelhados, poderia me passar por uma
garota chique da alta sociedade.
Tento disfarçar um pouco minha aparência cansada com uma leve
maquiagem, ajeito meus longos cabelos com as pontas dos dedos, passo um
brilho labial e assim, sinto-me pronta para fazer o favor a minha patroa.
Antes de sair, guardo na mala as peças que na ansiedade espalhei pela
cama, fecho e saio arrastando ambas, por sorte são de rodinhas.
— Puta merda, como você fica ainda mais gostosa fantasiada de
patroa.
Mais uma vez Barreto passa dos limites, tento controlar meus nervos
e passo direto por ele.
— Ei, calma delícia. Não precisa fugir.
Ele corre e me ultrapassa.
— A patroa mandou vir te encontrar por causa das doações que você
recebeu, vou te levar no tal lugar para você entregar o documento e depois

em sua casa. Agora me dê as malas, vou levar para o carro. Enquanto isso,
vá ver a chefa, ela te espera no gabinete.
Assim faço o caminho a passos largos mesmo que receosa por não
saber me equilibrar tanto nos saltos e vou de encontro a Dorothy.
Assim que entro no escritório, percebo nos olhos da minha patroa o
espanto ao me ver e demoradamente passeia o seu olhar com um tom
curioso por toda minha produção.
— Bem, já vi que você se agradou das roupas e devo admitir que
essa ficou ótima.
Sinto-me ainda mais agradecida com seu elogio.
— Obrigada. E a senhora não imagina o quanto gostei, nem tenho
como agradecer.
Dorothy se levanta sem me olhar e caminha até um armário onde
mexe em alguns documentos.
— Na verdade, tem sim. Por não estar me sentindo muito bem, você
vai me fazer um favor. Quero que entregue esse documento diretamente nas
mãos do *Dr. Adriano, ele já está te aguardando.

* O título de doutor foi concedido aos advogados por Dom Pedro I, em 1827. É também uma
questão de costume no Brasil, usada no livro.

Continua....

O advogado personagens

Personagens
Anastácia Stelle 
Cristhian Grey 
Irmã do Cristhian 
Motorista do Cristhian 
Dorothy Menezes Patroa da Anastácia 
Patrícia Menezes filha da Dorothy 
Barreto motorista da Dorothy 
Cozinheira e amiga do Cristhian 

bela mentira

Capítulo 6 Cristhian   Se horas atrás a festa estava cheia e as pessoas transavam, bebiam e dançavam, agora que todos estão a ponto de ter u...