Capítulo 3
Cristhian Grey
Em meio a uma conversa com um policial que está averiguando a
situação catastrófica e tentando colher mais informações, sem conseguir
disfarçar, verifico as horas e vejo que já passa da meia noite. E eu
definitivamente não gosto de demorar tanto.
— Cristhian, se você quiser, pode ir para casa. – Jamile olha o relógio. —
Vou com o responsável da vigilância buscar as gravações das imagens para
investigação, para encontrarmos o agressor e você sabe que isso demora. –
Confirmo com gestos estando praticamente esgotado.
— Obrigado, Jamile. Vou acatar a sua ideia. – Ela me passa um sorriso
reconfortante.
— Amigos são para essas coisas também. – Despeço-me por realmente
está tarde e sigo ansioso para ver minha pequena Beatriz.
♥
A cada quarteirão que avanço, fico imaginando se perdi muitos
momentos por estar um tanto quanto ausente durante o dia, desde quando Bia
ainda estava no ventre de sua mãe, li alguns livros sobre o desenvolvimento
de um recém-nascido e eu bem sei o quão rápidos eles crescem e a minha não
é nem um pouco diferente apesar de ter vindo ao mundo prematura.
♥
— Boa noite Cristhian, Bia acaba de despertar de um soninho gostoso, meu
filho.
— Boa noite, Domingas. Minha princesa está bem? – Sei que ela não é
muito de acordar de madrugada.
— Claro que sim, só precisei trocar a sua fralda. – Minha amiga que já
foi minha babá e a atual da minha filha, me mostra Bia e ela balança os
bracinhos em minha direção enquanto respiro aliviado por vê-la toda linda,
feliz e saudável.
— O papai chegou, amor. – E então eu recebo o sorriso banguelo mais
desejado do dia.
Ansioso para tê-la em meus braços, vou até a suíte do seu quarto e após
tirar a camisa e higienizar bastante as minhas mãos, corro ao seu encontro e a
conexão entre nós dois é tão forte que só em abraçar Bia, meu universo ganha
um outro tom, é como se não houvesse mais problemas no mundo.
Como já está tarde, sento-me na poltrona com Bia aconchegada nos
braços do papai e olhando para mim de forma fixa, testemunho seus olhinhos
fechando, abrindo, voltando a se entregar ao soninho e em minutos ela
dorme.
— Você é tão linda, minha filha. – Sussurro baixinho para não a acordar
e Domingas vem em minha direção.
— Ela é sua cópia meu menino.
— Acho que ela parece muito com minha mãe. – Domingas coloca a
mão na cintura.
— Se a vovó do ano ouvir isso, vai ficar se sentindo. – Divirto-me por
saber que é verdade, levanto-me para colocar Bia no berço, em seguida pego
a babá eletrônica e começo caminhar em direção ao meu quarto, ainda
preciso falar com Jamile para saber se tudo ficou bem, mas antes necessito
relaxar tomando uma rápida ducha.
Após um rápido banho, confortavelmente usando apenas uma calça
flanelada vou para cama e quando olho o celular vejo que já tem uma
mensagem.
♥
"Oi, Cris.
Tenho notícias, sobre a faca que o rapaz estava segurando, tudo indica
que ele deixou aqui na instituição escondida em algum lugar, não foi falha
das portas detectoras de metais.
Obs.- Só eu que lamento por não estarmos juntos esta noite? Um
momento de distração neste ramo estressante que trabalhamos cairia muito
bem.
Beijos,
Mile."
♥
Divirto-me com a mensagem de Jamile, digito a resposta com um certo
tom de brincadeira informando que estou onde deveria estar e envio. Espero
que seja o suficiente por hora.
Agora que tenho Bia na minha vida e ela só tem a mim, não consigo ser
como antes, preciso medir as consequências de todos meus atos e com este
pensamento, entrego-me ao sono.
♥
Como pai, meu despertador não é mais o celular e sim um chorinho de
menina que anuncia que minha Bia acordou, então levanto-me rápido, visto
um roupão e vou vê-la.
— Bom dia, Cristhian, já vou trazer o leite. – Agradeço a Domingas
enquanto verifico se a fralda precisa ser trocada.
— Como pode minha filha, sair tanto xixi de você que é tão pequenina,
hein? – Faço um pouco de cócegas em sua barriguinha, ela dá gritinhos,
aproveito a distração e eu me livro da fralda. — Como consegue gritar tão
alto tendo essa boquinha tão pequenininha? – Ela bate palminhas e entre
risadas, a levo para sua suíte de bebê, onde tem uma banheira no balcão que
facilita bastante a minha vida.
Com Bia em um braço, consigo preparar seu banho morninho usando o
chuveirinho e entre muita espuma, patinhos e brincadeiras, minha princesa
fica limpinha.
— Olha a mamadeira. – Ainda enrolada em uma manta, alimento minha
filha que suga o leite na velocidade da luz.
— Cristhian, marquei a pediatra, o atendimento será naquele horário
especial, após o seu expediente.
— Obrigado, Domingas. – E na rotina de pai e filha a manhã passa e eu,
sem escapatória, tenho que ir para o trabalho.
Anastácia Stelle
Finalmente chega o primeiro dia de aula e exatamente às treze horas,
embalo a décima caixinha com o kit "Meu crush" contendo os três bombons
com os sabores que me levam a pensar no lindo herói da noite anterior.
Sabendo que estou atrasada, após uma ducha rápida, escolho um vestido
floral que fica acima do joelho que eu julgo não ser muito antigo, uma
sandália rasteirinha confortável e após me alimentar e escovar os dentes,
estou pronta. Na verdade quase, já que preciso de pelo menos uma leve
maquiagem e um perfume.
Ao terminar, busco meu caderno que meu pai me deu, os módulos do
dia, a bolsa com os kits, e sigo o caminho, mesmo estando nervosa e com o
coração na mão.
Ao chegar na sala, estranho que as meninas estão meio que eufóricas, o
que eu perdi? Cheia de curiosidade, vou para um dos últimos lugares me
acomodar.
— Boa tarde. – Cumprimento uma linda garota, com longos cabelos
escuros, com as pontas mais claras.
— Boa tarde. – Educadamente me responde e volta a atenção para o
celular.
— Desculpa atrapalhar, mas eu perdi alguma coisa? – Ela volta a me
olhar e gargalha.
— Perdeu, o diretor passou por aqui e... – Ela se abana. — Que homem,
acho que ele é o sonho de consumo de qualquer mulher na face da Terra,
mais de um metro e oitenta e cinco de gostosura. – Minha boca até se abre só
de imaginar o tamanho dele, homens altos sempre me chamaram atenção,
apesar de que os mais coroas nem tanto.
— Uau, sério? – Ela confirma com gestos e quando nossa conversa vai
decolar, uma professora se apresenta para dar início a aula e lembrando-me
que só tenho um ano para absorver todos assuntos, que por ventura ainda não
conheça, concentro-me na aula.
♥
Às quinze horas, o sinal do intervalo toca, como a única pessoa que falei
praticamente foge da sala, vejo que está na hora de encarnar a Aline
vendedora e com minha bolsa, vou para área em comum do curso.
Ao longe vejo um banco perto de um canteiro de flores que meu pai
cuida com tanto carinho, parecendo abandonado, então vou até lá, após me
sentar tiro uma caixinha da bolsa, abro bem devagar para chamar atenção,
começo a comer quase que em doses homeopáticas e finjo que estou em uma
ligação.
— Amiga, o novo kit está perfeito, tem um bombom com morango,
outro levemente apimentado e um que lembra aquilo, porque o recheio tem
leite condensado. – Disfarçadamente olho para o banco do lado e uma aluna
me observa quase que salivando. — E hoje só tem mais nove kits, não resisti
e abri um. – A menina nem disfarça e senta perto de mim. — Pois é, sempre
acaba rápido e pode deixar que amanhã faço mais. – Finjo desligar e ao olhar
para a curiosa....
— Essa caixinha me chamou atenção, porque o nome desse kit com
bombons é "Meu crush"? – Explico o duplo sentido e ela vai a loucura. —
Ahh, só assim para eu provar “meu crush”, acredita que ele nem sabe que
existo? – Eu bem sei como é a sensação desde ontem à noite. — Quanto é? –
Tiro uma caixinha da bolsa e informo o valor. — Nossa! Quero pelo menos
três.
E assim se inicia o efeito dominó, com poucos minutos que a primeira
compradora se vai, as amigas dela aparecem e várias garotas compram meus
kits e para o próximo dia, tenho a lista de encomenda de vinte unidades.
— Uau, dobrei a quantidade. – E para comemorar, como os dois
bombons que restaram da caixinha que abri para mim.
— Estava aqui perto e não pude deixar de notar suas vendas. – A mesma
garota simpática da sala de aula se aproxima. — Meu nome é Vanessa e o
seu? – Nós nos apresentamos e ela senta ao meu lado. — Já notei que você
não faz parte deste mundo dos ricos assim como eu, que é super esforçada e
vende bombons, não dá muito trabalho?
— Na verdade eu amo fazer e vender meus bombons e trabalho sempre
dá. – Vanessa sorri um pouco tímida.
— Desculpa perguntar, Aline. Mas você ganha bem? – Nego com gestos,
pois apesar de não ter prejuízo, não uso materiais de segunda qualidade e por
isso não tenho tanto lucro. — Olha, aonde eu trabalho, o valor que você faz
em um mês, eu faço em dois dias. – Meus olhos ficam enormes e ela nota a
minha preocupação. — C-calma, eu não sou garota de programa, eu só
trabalho na maior boate bar daqui do estado e toda noite, as meninas que
trabalham lá e eu, fazemos uma coreografia ensaiada bem sexy, isso rende
um lucro enorme por causa das gorjetas, também conheço os Djs mais
famosos do mundo, apesar deles nem olharem para nós mortais. – Respiro
aliviada apesar de não ter nada contra, afinal de contas, cada um faz o que
quiser da vida. — Não quer trabalhar lá? Posso te arrumar um serviço e pode
confiar que ninguém se ousa conosco as garçonetes.
Rapidamente nego a oferta só por saber que mataria meu pai e toda
família, depois divago sobre a minha paixão pela culinária e ela me entende
bem. Acho que só trabalharia em tal lugar se não me restasse nenhuma saída.
♥
Completamente empolgada para cozinhar, chego em casa ainda sentindo
o gostinho das vendas rápidas e segurando duas sacolas de compras cheias de
materiais para confecção dos bombons, pois tenho encomendas para o
próximo dia.
Já na cozinha, encontro Ester fazendo o jantar, então deixo as sacolas no
balcão, como tenho tempo, corro para o banheiro pois preciso tomar uma
ducha e quando volto a encontrá-la, ofereço ajuda. Agradeço aos céus que ela
aceita, quatro mãos com certeza são mais rápidas.
♥
As vinte e uma horas jantamos e entre uma conversa e outra meu pai me
conta que Carla o procurou para saber se fiquei bem após a confusão na festa,
me entrega seu contato e eu amo a novidade, com certeza vou querer manter
contato com ela.
— Como foi o primeiro dia de aula, filha? E os bombons? – Conto
detalhadamente o quanto amei as aulas e conhecer novas pessoas e neste
clima ficamos entretidos na mesa durante uma hora e meia.
Ao terminarmos, Ester me diz que vai aproveitar que está sem sono e que
vai tratar um frango e fazer almondegas com carne moída para a semana e
desta forma, não vejo como ter a cozinha antes da madrugada.
— Quer ajuda? – Ela nega enquanto enxuga a mão.
— Não, Ana. Você precisa dormir, para acordar cedo e começar estudar.
– Eu realmente tenho que estudar, porém preciso fazer meus bombons, nem
me imagino pedindo dinheiro para meu pai para suprir minhas necessidades
básicas. — E aqui você não precisa perder noites para ganhar um dinheiro
extra, seu pai e eu podemos te ajudar, mesmo com pouco. – Ai Deus! E
agora? Como vou chegar amanhã no curso de mãos vazias? Os bombons não
ficam prontos tão rápidos, principalmente com este clima desta cidade que
mais parece um passeio no andar de baixo.
— T-tudo bem. – Quando vou sair da cozinha, vejo as sacolas com os
materiais no balcão e uma ideia que nem eu acredito que estou tendo me vem
à cabeça.
— E se? – Agora tenho certeza que tenho um diabinho na cabeça.
— Nãooooo, nem pense... – E um anjo também.
— Na verdade, ninguém saberá se você for – Meu lado inferninho contra
argumenta.
— Ah Anastácia, não pira e vá dormir... – E recebo uma bronca do meu eu
celestial.
— Juro que não estou pirando, a ideia é legal. Você lembra quantos
balcões aquela cozinha do curso de gastronomia tem? Sem falar em todos
utensílios. – Os argumentos são maravilhosos. Mas...
— Na verdade estou tentando esquecer e me conformar com as panelas
pequenas daqui de casa, o calor infernal e os bombons derretendo a cada
segundo.... – Triste realidade
— Boba... – O diabinho gargalha da minha resposta.
— Na verdade eu sou prudente. – Contra-argumento.
— Prudente, derretida como uma calda de chocolate de péssima
qualidade e sem dinheiro. Futuramente vai pedir para o papai dimdim até
para comprar um pacote de absorvente e você já tem quase vinte e um anos.
— Aiiii nãooooo... Que horrível. – Acabo pensando alto.
— Nisso nós concordamos... – E meus pensamentos se unem.
— Anastácia? Você disse algo, filha? – A voz da minha querida segunda mãe
me tira dos meus devaneios.
— É-é, já vou dormir. – Ester se despede de mim, volta ao seu serviço,
sem que ela perceba carrego as sacolas com todos os materiais e caminho
para meu quarto na ponta dos pés. Ao chegar, logo encontro minha touca que
uso quando estou cozinhando, e silenciosamente volto para sala. Sorte que
meu pai já cochila enquanto finge ver um filme e eu consigo sair sem ser
vista.
♥
A cada passo que dou no pequeno caminho até a porta da cozinha dos
sonhos, meu coração acelera e apesar da faculdade ser monitorada, bem nesta
área, eu não vejo nenhuma câmera, provavelmente isso ocorra por ser perto
da entrada da minha moradia, então apresso mais alguns passos e seguro na
maçaneta, pedindo aos céus para porta estar aberta e para minha surpresa,
está. Realmente este local da faculdade é quase que esquecido.
Taquicardia, é quase isso que sinto por saber que acabo de virar uma fora
da lei. Após acender a luz de um dos pontos do local, tranco a porta por
dentro e depois de colocar as sacolas no balcão, sem muito pensar, começo a
abrir e fechar as gavetas.
— Ai meu Deus! Batedeira industrial, maçarico culinário, cortador de
bolo profissional, facas e mais facas.... Isso é um sonho! – Só falto gritar de
alegria, mas como tenho medo que alguma alma me ouça, fico calada e sem
mais enrolação, começo a retirar os ingredientes das sacolas e pelo o que sei a
noite será longa, pois ainda tenho que fazer a compota de frutas vermelhas
levemente apimentada.
Às três horas da manhã, verifico pela décima vez se não deixei nenhum
sinal de que estive na cozinha e com meus bombons nas caixinhas volto para
casa, feliz por ter conseguido preparar a encomenda e com saudade da
enorme cozinha, já que me fiz uma promessa que não serei mais ilegal. Uma
vez, basta para meu currículo.
♥
— Curtam bastante o intervalo e até daqui a pouco. – A professora nos
libera e lá vou eu com minha sacola para o mesmo banquinho onde fiz o
marketing no dia anterior e para minha surpresa, algumas meninas já me
esperavam. Lá se foram vinte kits na velocidade da luz. — Amanhã tem kit
novo, meninas.
— Qual? – Com a boca parcialmente lambuzada de chocolate, uma
adolescente super empolgada aguarda a resposta.
— Já estou louca para provar, como vai ser? – A outra sem perceber,
lambe os dedos e eu amo ver as reações.
— O novo kit se chama, "preliminares." – Uma aluna coloca a mão na
boca para conter um gritinho, algumas suspiram e Vanessa fica toda
vermelha. Ai! Será que ela nunca transou?
— E-e quais os nomes dos bombons do kit? – Van pergunta um pouco
tímida.
— "Beijo de língua", "que pegada" e "não para." – Ela morde os lábios e
coloca os cabelos para os lados enquanto eu fico surpresa com minhas
últimas inspirações, se eu continuar assim, nem quero pensar no bombom que
vou querer fazer.
— Uau, vou querer um, ainda mais que vou ver meu crush amanhã
naquele lugar que te falei. – Lembro-me do seu trabalho e fico surpresa por
saber que ela está de olho em alguém na boate. — Acho que não custa nada
sonhar. – Em seguida se despede após dizer que precisa beber água e lá
vamos nós para sala de aula.
♥
Já no outro dia, assim que a professora anuncia o intervalo, esperançosa
que vou vender quarenta e cinco caixinhas que fiz novamente na cozinha da
faculdade, caminho até o banquinho que virou meu estabelecimento e após
alguns minutos, sem precisar fazer promoção, vendo quarenta e três kits, com
certeza ainda conseguirei vender os dois que restam.
— Esse doce "não para" está mais gostoso do que o amasso do meu
namorado. – Uma aluna faz o grupo de garotas gargalharem. — Estou
falando a verdade, acho até que vou levar uma caixinha para ele, vai que surte
efeito. – Umas concordam, outras discordam e eu fico maravilhada, pois na
verdade meus bombons, apesar de terem ingredientes secretos para
diferenciar dos normais, são doces finos, mas os nomes que coloco nos kits,
fazem toda diferença.
Ainda entretida com as meninas que não param de conversar, uma jovem
de aproximadamente trinta e oito anos se aproxima me olhando de um jeito
que dá até medo.
— Você é Anastácia? A vendedora dos kits com bombons? – Confirmo
sentindo um certo receio. — Meu nome é Leandra, sou a dona do restaurante
e lanchonete do cursinho e faculdade e acho que esqueceram de te informar
que a venda de alimento por aqui é proibida. – Paro por um momento e tento
me lembrar das normas aplicadas a instituição que eu li quando ganhei a
bolsa.
— Acho que a senhora está enganada, sei que em muitos cursos e
faculdades existem a proibição, mas nesta aqui não. – Ela revira os olhos ao
me ouvir.
— Deve ser porque é um local bem frequentado e nunca uma aluna de
baixa renda teve acesso e precisou fazer um dinheiro extra. – Abro a boca
para responder, mas ela dá mais um passo em minha direção. — Pago aluguel
do espaço do restaurante, impostos, tenho funcionários e não vou aceitar que
você roube minha clientela. – Ela fala tão alto que as meninas viciadas nos
meus bombons se aproximam.
— Anastácia, então não vamos ter mais bombons? – Minha cabeça parece
que vai explodir pelo ataque repentino da Sra. Leandra enquanto as meninas
fazem mil perguntas.
— Vou marcar hora com o diretor e vou pedir autorização para continuar
vendendo os bombons. – As clientes ficam aparentemente mais calmas.
— Graças a Deus, como viveríamos sem o "crush" e as "preliminares"? –
Merda! Esses nomes não deveriam ser pronunciados justamente agora.
— Eu ouvi direito?
— Claro dona Leandra, quer um pedaço do "beijo de língua"? É
maravilhoso. – A aluna sendo completamente inocente piora ainda mais a
minha situação.
— Como em um cursinho onde meninas menores de idade frequentam,
você tem coragem de usar esses nomes nos seus doces? Isso vai contra a
política dos bons costumes. – Completamente descontrolada, ela não para de
falar e cada vez mais alto. — Daqui a pouco você vai usar qual nome ou
formato? – Meu Deus, o que faço? A cada minuto mais alunos se aproximam.
— Se não tiver controle, veremos em breve bombons no formato da genitália
masculina? – A multidão aumenta.
— Calma dona Leandra, isso tudo é só uma brincadeira entre
adolescentes e jovens, e os meus bombons são em formatos tradicionais. – As
meninas confirmam.
— Não vamos ficar sem os doces da Anastácia. – Uma aluna me defende.
— Não mesmo. – Vanessa se aproxima concordando.
"Queremos nosso crush e as preliminares."
Não consigo identificar quem faz o grito de guerra e em segundos, me
vejo, cara a cara com dona Leandra que só falta me matar, umas trinta
meninas repetindo em alto e bom som a minha defesa e com isso, atraindo
ainda mais curiosos, inclusive os rapazes.
— Eu aceito ser o crush de vocês e prometo enlouquecê-las com as
preliminares. – Um menino de no máximo dezessete anos que nem se livrou
das fraldas se oferece e as meninas começam a vaiar. — Eu prometo, faço
gostoso. – A situação sai do controle.
— O que está acontecendo aqui? – Uma morena alta, bastante elegante
com um marcante timbre de voz abre caminho e fica bem ao meu lado e pelos
sussurros já sei que é a vice-diretora.
— Jamile, esta garota está vendendo doces com nomes bastante
sugestivos. – Leandra pega a caixa da mão de uma aluna. — Olha que
absurdo. – Me vejo completamente sem defesa.
— Me acompanhe para diretoria agora. – Jamile ordena.
— C-como assim? – Ela segura a caixinha, com a expressão de poucos
amigos, me mostra o caminho que tenho que fazer e eu não sei o que será da
minha vida, eu nunca fui parar na diretoria e o pior, sou bolsista. Será que
vou complicar a vida do meu pai? – Meus olhos ficam marejados pois estou
ciente que se realmente o que fiz for considerado grave, posso perder a bolsa.
O que será de mim? Acho que estraguei a segunda chance que a vida me deu.
Continua.
Gente comentam para saber se estão gostando da história
Beijos.